24 de março de 2016

#Somos51PorCento

Este post é sobre o fato de que nós, mulheres, somos 51% da população mundial. Deveríamos ser 51% de todas as populações: dos engenheiros, dos policiais, dos políticos e das donas de casa. Tenho três sugestões para chegar nesta proporção.

1) Precisamos nos encontrar mais

No sábado, 12 de Março de 2016, participei do excelente Women Techmakers 2016 (#wtm16). É um encontro que existe desde 2012 em comemoração do dia da Mulher, onde mulheres da área de tecnologia discutem, aprendem, interagem. Este ano aconteceram encontros em 50 países, em um total de130 eventos, com a participação de mais de 12.000 mulheres envolvidas com tecnologia.

Precisamos de encontros como estes para que possamos conhecer outras mulheres engajadas, outras mulheres que aprenderam e podem nos ensinar, outras mulheres.

Para isto, é necessário que estes encontros sejam:
i) no final de semana, pois muitas de nós trabalham durante a semana.
ii) em lugares que tenham infra-estrutura para crianças, pois muitas de nós são mães e não tem com quem quem deixar os filhos.
iii) avisados com bastante antecedência, e que a pauta seja avisada por e-mail antes, para que possamos priorizar nossos escassos recursos de tempo.

Somos 51% da população, deveríamos ser 51% do público em reuniões. E deveríamos ser 51% das pessoas convidadas para falar. Se você não consegue participar de encontros, coloque o que seria necessário para participar nos comentários e eu incluo na lista acima.

2) Precisamos nos organizar mais

Neste momento político do Brasil, a filiação à partidos parece quase um palavrão. Mas a política não é feita apenas por partidos. Grupos organizados na internet, ONGs, grupos de amigos, e até empresas podem ser organizações políticas.

Conhecer e votar em mulheres que defendam plataformas feministas é o primeiro passo, mas pensar em se eleger no futuro, fazer campanha, é parte fundamental da cidadania.

Somos 51% da população, deveríamos ter 51% dos cargos eletivos, dos cargos de confiança, da autoria das leis, das presidências e conselhos. Se você já faz parte de uma organização, pressione para que regras para garantir ou incentivar este percentual sejam implementadas.

3) Precisamos nos comunicar mais

A desigualdade existe e persiste em muitos lugares que nem sabemos que ela está. Empresas, por exemplo, só mudarão suas políticas quando sua imagem pública for prejudicada pelas políticas vigentes.

Por isto, criei no Facebook o perfil Somos51PorCento onde você pode deixar depoimentos sobre instituições de ensino, empresas, serviços públicos, soluções coletivas ou individuais ou qualquer outra situação onde percebeu que políticas para incluir ou excluir mulheres são postas em prática.

A ideia é  fazer uma lista anual dos 10 melhores e piores lugares para se trabalhar, estudar, ir ao restaurante, morar, etc., baseada no que for colocado como depoimento. Se soubermos, e contarmos, podemos apoiar ou boicotar iniciativas, e, com isto, forçar mudanças.

Somos 51% da população, deveríamos ser 51% dos gerentes e das caixas de supermercado, dos engenheiros e das enfermeiras, dos professores infantis, dos artistas, das babás e dos garçons. Participe, mande suas sugestões, depoimentos, ideias para criarmos esta mudança.

#Somos51PorCento

4 de fevereiro de 2016

Para que colocar meu filho em uma aula de programação de computadores???

Para que aprender essa tal de programação?

Seu filho já faz aula de natação, inglês, talvez música.
Seu filho já frequenta um bom colégio.
Seu filho adora tecnologia, e você se preocupa um pouco que ele passe tempo demais na telinha.
Para que colocar ele em mais uma aula?

Como mãe de duas crianças, eu posso te dar várias razões práticas, que eu escreverei a seguir. Mas eu acredito que a principal razão para oferecer à sua criança a oportunidade de aprender a programar é: porque é simplesmente incrível.

Vivemos na revolução digital. Nossos avós ouviam rádio, nossos pais viveram a chegada da televisão, nós usamos os primeiros celulares. Nossos filhos são os primeiros nativos do mundo digital onde a criança nasce SE VENDO dentro da tecnologia.

A vida digital e a vida "real" se mesclaram de tal jeito, que as crianças de hoje em dia não entendem mais o conceito de "menino, sai da internet". A internet está em todo lugar. O registro diário no celular, no Facebook, é a realidade. As relações se expandiram para o digital. Agora é possível encontrar pessoas com os mesmos interesses, ler livros que nunca seriam acessíveis, aprender línguas com estrangeiros do outro lado do mundo, ver notícias em tempo real dos quatro cantos do planeta. 

E, por trás de toda esta revolução, provavelmente a maior depois da invenção da máquina a vapor, está a programação. Entender como esta revolução funciona, o que é possível fazer com ela, vai ser a chave para a inovação e a criatividade no futuro. Não é possível dominar o que não conhecemos. E entender como funciona o mundo em que vivemos é simplesmente incrível.

E o lado prático?

Além do sentimento incrível de entender o mundo, existem várias razões práticas para aprender programação. 

1) Crescimento profissional: A criança que não aprender como computadores funcionam não será capaz de criar com eles. Mesmo que nunca se torne um programador, em todas as carreiras é necessário usar computadores, não só nas engenharias, mas nas artes, direito, medicina. Como o físico Stephen Hawking disse:
"Se você quer revelar os segredos do universo, ou apenas ir atrás de uma carreira no século XXI, o básico de programação de computadores é uma habilidade essencial para se aprender." -- Stephen Hawking

2) Capacidade de solucionar problemas. Como disse Steve Jobs (fundador da Apple): 
"Todas as pessoas deste país deveriam aprender a programar, porque isto te ensina a pensar."  -- Steve Jobs
Programar consiste em treinar seu cérebro a dividir problemas em pequenos pedaços e atacar cada parte até resolver o problema por completo. Este treino é válido para todas as áreas da vida, e desenvolve a concentração, a paciência e a resiliência. 
"The best way to get ahead, is to get started."  -- Mark Twain (há uma certa dúvisa sobre se foi ele ou não que disse isso... mas a ideia é ótima!)
 O melhor jeito de sair na frente é dar o primeiro passo.
3) Habilidades lógicas e matemáticas. Programas são comandos que fazem máquinas funcionarem. Para "pensar como a máquina", é preciso pensar logicamente, matematicamente. Instruções precisas acompanhadas de roteiros definidos. Definir estratégias que façam sentido. Estas habilidades serão fundamentais para gerir negócios, planejar viagens, fazer orçamento pessoal e atingir objetivos.

4) Entender a tecnologia do futuro, suas vantagens e limitações. Duas tecnologias em crescimento vertiginoso nos últimos anos prometem mudar o mundo que conhecemos: Internet das Coisas e Inteligência Artificial.  Internet das coisas (IoT) é ter pequenos computadores em seu carro, seu relógio, sua geladeira. Cada um destes computadores poderar adiquirir informações, ajudá-lo com tarefas diárias, comunicar entre si. Assim, sua geladeira te avisará que o leite acabou, seu relógio irá te lembrar que está na hora de fazer exercícios e a porta da sua casa abrirá com a sua voz. 
Inteligência Artificial (AI) são computadores que aprendem com grandes quantidades de dados, descobrem padrões, fazem previsões e tomam decisões. AI já está presente nos telefones que reconhecem voz, no Siri da Apple, nas rotas do Waze, no Watson da IBM. Estamos produzindo cada vez mais informação, e o mundo vai se tornar cada vez mais dependente de máquinas inteligentes.  Saber falar esta linguagem será um grande diferencial no futuro. Poder produzir, ou saber conversar com quem produz este tipo de tecnologia permitirá entender seus limites, não acreditando em falsas promessas, e aproveitar todas as suas vantagens e usá-las em seu benefício criando novas soluções.

Por isto tudo, esperamos você e sua criança, meninos e meninas, para construirmos juntos este futuro.

25 de outubro de 2015

Plantão Médico (por uma Engenheira)

Explicação: Eu sou a única engenheira em uma família cheia de médicos. Avô, pai, cunhado, irmã. Passei boa parte do meu tempo ouvindo eles discutirem casos, tratamentos e explicações. Além disto, adorava assistir Plantão Médico e Scrubs. Como não consigo decorar nomes complicados nem que minha vida dependa disso, virou piada recorrente meus "erros" na hora de descrever nomes de medicamentos (e, invariavelmente, órgãos internos). O resultado é o texto abaixo.

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Ela chegou queixando-se de uma leve miodicitose.

Eu, como médica.
Indiquei à enfermeira que desse 14 mili-ges de fenoctiladina e observasse. Por precaução, pedi uma contagem de neociplastoses mínimas.

Mas o exame nem tinha sido realizado quando ela entrou em disruptose aguda. Imediatamente a entubei com uma placa 48; abrimos uma linha e injetamos duas ampolas de freocoliptídeos. Ela deveria estabilizar rapidamente.

Para nossa surpresa, o nível de preonícitos não parava de subir, então apelei para 6g de difenaclitercóide. Nada.

Chegando em assístole crônica, abri o peito dela, externo, miolo, interno, peguei o coração em minhas mãos. Aí ficou óbvio para toda a equipe: um miofaglocentróide atrapalhava toda a circulação!

- Clear! - eu gritei,  enquanto a enfermeira carregava em 110V.

O choque fez com que ela recuperasse alguma pressístole, mas a pressão ainda estava em 10 por 3,14. Hora de tomar a decisão heróica.

A equipe e eu sabíamos que apenas uma dissezolaparoscopia completa, radical mesmo, salvaria a vida da paciente. Bisturi número 9, pedi. Aço ou platina? Aço; não temos tempo.

Seccionei, puncionei, cauterizei, retirei suas amígdalas e um resto de apêndice. Ainda era pouco. Retirei um fígado, ela teria que se virar só com um. E foi então que o pior aconteceu. Completa parasectose.

Ninguém pode prever este tipo de reação, eu sei, mas algo me dizia que eu tinha que ir até o fim.

As enfermeiras entraram com meu bolo de aniversário, soprei as velas, e gritei:

- Mais 10mg de onteprazol, 22 ml de O positivo, e levantem mais esta maca!

Subi no peito da paciente, e, usando o tubo como guia, levei o laringegoscópio até o estômago. Lá estava ele, a raiz do miofaglocentróide. Queimei-a com o laser de cirurgia de miopia; hemonagioglocebina, agora!

Como se renascida dos mortos, a paciente voltou a respirar, apenas 52 minutos depois da parada cardíaca-pulmonar-intestinal. Estava salva!

Mais um grande dia no ER!

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Dedicado à Dra. Luiza, ao Dr. Luiz e ao Dr. Jorge. Originalmente escrito em 14/12/2004.

30 de setembro de 2015

O Dia do Mundo Melhor

Imagine um dia onde ninguém cometesse nenhum crime.

Um dia onde todos cumprissem a lei, as regras de boa convivência e de educação.

Onde todos respeitassem faixa de pedestre, proibido estacionar, sinal de trânsito,  vaga de deficiente, prioridade de fila, e o sinal de afivelar cinto de segurança no avião até a parada da aeronave.

Onde policiais não matassem bandidos e bandidos não matassem policiais. Onde políticos não desviassem dinheiro. Onde seu filho pudesse ir até a padaria sozinho, sem risco de ser sequestrado, baleado ou assaltado. Onde crianças e adolescentes não apanhassem, não utilizassem drogas e não batessem carteiras.

O efeito no Brasil de apenas um dia sem crimes seria 4.317 veículos que não seriam roubados, 172 mulheres que não seriam estupradas e 182 pessoas que não seriam assassinadas. (fonte)

Agora, imagine que este é também um dia de compaixão, de ajudar ao próximo. Oferecer uma mãozinha para quem está com sacolas pesadas. Dar dez reais e um sorriso para o mendigo do bairro. Ligar para quem você gosta e agradecer por tudo que esta pessoa trouxe de bom para sua vida. Fazer um trabalho voluntário, separar doações para quem precisa mais. Ouvir alguém com carinho sem julgamentos, e elogiar sinceramente um conhecido. Um dia sem preconceito, piadas racistas e machismo.

Eu proponho que este dia seja o dia 4 de Janeiro de 2016, o primeiro dia útil do ano. Começando com o pé direito.

Apenas um dia. Um dia para vermos como seria um mundo melhor. Um dia para provarmos que o ser humano tem jeito, que podemos ser melhores. Um dia para sabermos como o mundo poderia ser. Um dia de segurança, aproximação e esperança.

Quem sabe a gente se acostuma?

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1) Se você tem mais sugestões de como fazer o Dia do Mundo Melhor ainda melhor, adicione nos comentários!

2) Se você gostou da ideia, compartilhe com o máximo de pessoas que puder. Mande para jornais, empresas, amigos e conhecidos. Esta ideia só vai decolar se estivermos todos juntos. E você é parte importante disto. Cada pessoa faz diferença. Conto com você! Até dia 4!

8 de setembro de 2015

10 Razões pelas quais seu cachorro NÃO é seu filho

Desculpa, mas não.
Várias pessoas que não tem filhos, e algumas que tem (!), de vez em quando se revoltam porque o resto da sociedade não trata seus gatos ou cães como seus "filhos".

O mais recente foi uma reclamação no Facebook sobre uma família (um casal de idosos e sua filha) que foi "expulsa" da Boca do Forno São Bento porque estavam com uma cadela (a empresa nega que foram expulsos, dizendo que eles pediram para que eles se retirassem, a família argumenta que isto é a mesma coisa que expulsar).

Eu não ia me intrometer, mas no argumento a filha diz que:

"Eu, meu pai e minha mãe (já idosos), fomos convidados pela funcionária, a nos retirarmos do local!!!!"
"Enquanto isso, crianças pequenas correm e gritam pelo ambiente, choram alto, pingam catarro e continuam lindamente lá!"

Opa, peraí.

Acho que agora foi longe. O fato de que crianças possam estar no estabelecimento NÃO te dá o direito de colocar o seu cachorro lá.  Existem, pelo menos, 10 razões pelas quais seu cachorro não é uma criança:

  1. Você não pode deixar seu filho em casa sozinho para ir lanchar.
  2. Você não vai castrar seu filho se não quiser cuidar dos netos.
  3. Você não vai dar os filhos do seu filho para estranhos (às vezes por dinheiro).
  4. Você não permitiria que alguém separasse seus filhos dos amigos e família dele quando ele fizesse 10 dias.
  5. Você não vai sacrificar seu filho se ele estiver doente e comprar outro filho parecido.
  6. Se seu filho for atropelado, você não vai descansar enquanto quem o atropelou não seja punido.
  7. Seu filho não vai fazer xixi e cocô em áreas públicas (incluindo restaurantes como a Boca do Forno).
  8. Você não vai separar seu filho de TODOS os outros seres humanos, fazendo-o conviver apenas com uma raça diferente da dele que decide quando ele vai comer, sair de casa, fazer sexo e se reproduzir para o resto da vida dele.
  9. Você não vai deixar seu filho com estranhos quando viaja.
  10. Seu filho não vai morder, latir e pular em estranhos (principalmente os que não gostam de crianças) em restaurantes.
Eu imagino que quem gosta muito de animais de estimação, acha que esta relação é boa para os dois lados. O humano tem um "companheiro" e o animal ganha casa, comida e roupa lavada. E é "da família".

Só que não é bem assim. Vou fazer um paralelo. Outra categoria que geralmente recebe esta conotação "como se fosse da família" são empregadas domésticas. Como mostra o excelente filme "Que Horas Ela Volta?", esta é uma forma disfarçada de tentar transformar em "bondade" uma relação que é basicamente de controle e submissão. Seu cachorro será "da família" até morder alguém. A empregada será "da família" até tentar dormir na cama da patroa. Ou comer na mesa da sala. Ou usar o banheiro social. Enfim, será sempre uma relação desigual.

Eu tenho um grande amor por todas as espécies de seres vivos (insetos menos um pouco). Por isto, não acredito que neurotizar um outro ser vivo, mantendo ele enjaulado pela vida toda seja amor. Um argumento interessante seria dizer que nós "domesticamos" estes animais, e que agora eles não tem mais condições de viver sozinhos. Verdade. Mas quando esta domesticação aconteceu, a gente também morava em comunidades rurais, com muito espaço, e os bichos viviam soltos! Ninguém foi evolutivamente selecionado para viver em área de serviço, sem janela ou espaço verde, de um apartamento no vigésimo oitavo andar. Nem bicho, nem gente.

Por fim, estudos indicam que os cachorros também não se sentem seus filhos. Eles entendem que fazem parte de uma matilha, onde eles estão na escala mais baixa. Por isto o comportamento submisso ("carinhoso"), entristecido ("dócil") e pacífico ("feliz"). Projetamos nos bichos nossos sentimentos de gratidão, amor e carinho, enquanto eles estão encarcerados, subjugados e isolados de qualquer chance de vida independente.

Não me espanta que, às vezes, fujam. "Fecha a porta, senão ele escapa".

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PS1: Escrever este texto me deu um desconforto extremo, por comparar os bichos de estimação com empregadas domésticas. Quero deixar bem claro que minha crítica aqui é ao tratamento similar que nossa sociedade dá para animais e domésticas, e o quanto ambos os tratamentos são terríveis na minha opinião. Inclusive, a ideia de que os animais domesticados não conseguiriam viver sozinhos era um dos argumentos dos senhores de engenho para não libertar os escravos, que seriam incapazes de viver sem a proteção do dono. Já estamos avançando em alforriar as domésticas, com a Lei da Doméstica, que ofereceu à elas quase os mesmos direitos que todos (!) os outros trabalhadores tem. Talvez esteja em tempo de pensarmos em alforriar os animais de estimação.

PS2: Por coerência com estes sentimentos, nunca tive empregada que dormisse no serviço, e hoje, apesar de ter duas filhas de 9 e 3 anos, e trabalhar fora de casa, não tenho empregada doméstica todo dia. Contrato os serviços de uma faxineira duas vezes por semana e uma passadeira de 15 em 15 dias, que chegam na hora que querem, fazem o serviço e vão embora na hora que querem. Trato as duas não como se fossem "da família", mas como seres humanos dignos, que provêm um serviço que preciso e pelo qual são remuneradas. Obviamente criei um laço afetivo com as duas, mas não uso este laço para pedir que façam mais do que o serviço contratado. Tive dois hamsters e um peixe como animais de estimação, logo que me casei. Depois disto percebi a crueldade do que estava fazendo, e me prometi nunca mais fazer isto.

17 de agosto de 2015

Aula de Fotografia

Minha irmã me emprestou um livro ótimo: 


Não vou falar do livro por que vale MUITO a pena ler.

Não sou fotógrafa, não sou artista, não sei fazer isto direito, não estou aqui para ensinar fotografia para ninguém.

Mas me deu vontade de testar algumas ideias, então aqui vão minhas primeiras fotos depois de lê-lo.

"Timidez" Ana Rodrigues 2015


"Tecnologia" Ana Rodrigues 2015



"Nave mãe" Ana Rodrigues 2015

E por fim, a minha preferida:

"Prazer" Ana Rodrigues 2015



5 de junho de 2015

Encontrando a paz... nos outros.

Eu gosto de livros de auto-ajuda.

Gosto do jeito simples de explicar uma ideia e repeti-la com diversos exemplos que você pensa: "puxa, eu sou/já fui assim". Gosto de fazer os exercícios no final dos capítulos e me sentir suuuper inteligente (sim, eles são feitos para você acertar todas as respostas e se sentir suuuuper inteligente).

Gosto de como, em cada um deles, eu acho uma oportunidade para aprender alguma coisa, e me tornar uma pessoa melhor.

Claro que tem livros e livros de auto-ajuda. Eu curto os sobre personalidade e relacionamentos: "Homens são de marte, Mulheres são de Vênus", "59 segundos", "Crianças francesas não fazem birra". Mas não gosto muito dos relacionados à carreira e dinheiro:"Os 10 hábitos das pessoas bem sucedidas", "Pai rico, filho pobre"(?), "Quem mexeu no meu queijo".

Meu marido nunca gostou. Ele prefere romances de 500 páginas e ficção, que eu também gosto, mas gosto de alternar algo "artístico" com algo mais leve e "pé no chão". Por isto, fiquei meio espantada quando ele me recomendou um livro de auto-ajuda: "Comunicação não-violenta" (Non-violent communication - versão em inglês para o Kindle aqui e versão em papel em português aqui).

A história começou quando eu estava reclamando com ele sobre um dos pontos de atrito que o nosso casamento tem (como todos).  Depois de 12 anos juntos, a gente se acostuma a um certo padrão de briga.

Quem nunca?
No nosso caso era:
- Eu reclamo de algo.
- Ele diz que não fez.
- Eu digo que fez sim, em um tom mais agressivo.
- Ele se justifica, dizendo que, se fez, a culpa de alguma forma foi minha ou de terceiros.
- Eu falo que ele fez mesmo, e que a culpa foi dele sim, já que quem devia ser responsável era ele. Se eu ou terceiros fizemos alguma coisa, ele devia ter lidado com a situação.
- Ele se cala.
- Eu continuo acusando ele e relembrando situações passadas onde isto aconteceu exatamente do mesmo jeito, cada vez mais frustrada e com raiva.
- Ele continua calado.
- Eu desisto de brigar, e saio de perto, chateada.
- Duas horas depois, ele volta pedindo desculpas, que eu aceito, mas saio com a sensação de que tudo vai acontecer de novo (e acontece).

Neste dia, depois que eu reclamei, ele me respondeu:
- Entendo o que você está sentindo. Você quer que eu não faça mais [motivo da reclamação] porque faz você se sentir ignorada. Para mim é difícil fazer isto quando estou fazendo outra coisa ao mesmo tempo. Mas vou tentar com mais atenção da próxima vez. Me desculpe.

Eu fiquei calada. Espantada. A raiva que eu estava sentindo sumiu. Minha vontade era perguntar:
- Quem é você e o que você fez com meu marido?

Eu tinha sido ouvida. Eu percebi que era difícil para ele, e consegui empatizar (afinal, eu estou casada com ele porque gosto dele, certo?). Ao invés de ficar com raiva dele, eu agora queria ajuda-lo. Por que é difícil? Tem algo que eu possa fazer para que não seja? Como nós dois podemos fazer funcionar?

Ao ver minha reação, ele também ficou impressionado. Me disse então que estava lendo o livro, que um amigo tinha indicado. Eu imediatamente fiquei curiosa. E comecei a ler.

Todos que me conhecem sabem que eu sou "enfática" nas minhas opiniões (esse é um jeito bem não-violento de falar que eu sou brigona). Que não consigo ouvir uma opinião que eu acho errada e deixar por isto mesmo. Que eu reclamo publicamente de piada racista, homofóbica ou sexista. Que eu compro briga com gente egoísta em aeroporto e mando carta para a escola por causa do fato do professor de educação física fazer sempre competições meninos x meninas. Que eu escrevo no meu blog reclamando de filme infantil. Bom, que eu tenho este blog.

Mas qual o meu objetivo com tudo isto? É brigar? Claro que não. É mostrar para as pessoas que elas estão erradas, e que deveriam fazer as coisas de outro jeito. E quase sempre isso não funciona. Nem um pouco. Na maioria das vezes, elas saem com raiva de mim, e com exatamente a mesma opinião, ou mais radicais ainda. Algumas vezes elas me tratam com condescendência ("não precisa levar isto tão a sério"). Algumas vezes ficam em silêncio. Raramente concordam comigo. Frustante. Irritante. Para mim é tão óbvio, por que eu não consigo mostrar para as outras pessoas???

E o resultado é que eu fico irritada boa parte do meu tempo. Quando eu não falo, fico irritada. Quando eu falo e a pessoa não concorda comigo eu fico irritada. Quando eu falo e a pessoa me trata como uma histérica, eu fico irritada. E aí eu comecei a achar a vida péssima. O tempo todo vendo como os outros estão "errados" e eu, sozinha na minha certeza absoluta. Horrível.

Então eu comecei a ler o livro. Nem tinha lido ele todo quando fui em uma reunião, e uma pessoa falou algo que me irritou profundamente. Achei insensível, fora de contexto. Saí da reunião cuspindo marimbondos. Cheguei em casa e escrevi um e-mail no jeito que estou acostumada. Provava para ela por A+B como ela tinha sido insensível e errada. No final, sobrou aquela sensação de "Acabei com ela". Me senti melhor? Nem um pouco. Sabia que a reação dela ia ser péssima, falando que eu que estava errada, que ela não tinha dito nada daquilo, que eu que estava entendendo tudo torto.

O livro fala que confundimos agressividade com razão. Achamos que para mostrarmos que estamos certos, precisamos falar alto, acusar, destruir o argumento do outro. Somos acostumados à uma ideia de que duas pessoas não podem estar certas e ter ideias diferentes, então, se estamos certos, o outro deve estar errado. E o jeito de mostrar isto é acusá-lo, atacá-lo, agredí-lo.  

Mas Gandhi diz que "Não-violência é a arma do forte". O livro, escrito pelo neto do Gandhi, explica que NVC (non-violent communication) consiste basicamente em (leia o livro, isto é só um resumo muito, muito limitado):
1) Empatizar com o seu interlocutor. Ou ele quer a mesma coisa que você e vai te ajudar, ou nem adianta comunicar. Se você já entrar na conversa achando que tem que "ganhar a discussão", ele vai plantar o pé do outro lado, e ninguém vai se mover da posição que começou.
2) Não critique, julgue ou acuse o outro. Assuma que todo mundo tem boa intenção, mas pode não ter as mesmas opiniões ou informações que você. Mesmo pessoas que tem ideias completamente opostas às suas podem ser boas, bem intencionadas e estar certas.
3) Fale sobre os seus sentimentos e o que você precisa que a outra pessoa faça de forma clara, sem exagerar, acusar ou chantagear. "Você foi agressiva demais" é péssimo. "Eu gostaria que você usasse outro exemplo para falar deste assunto pois eu me sinto desrespeitada quando você usa este exemplo" é bem mais palatável.

Apaguei tudo que escrevi, e comecei de novo. Um sentimento estranho tomou conta de mim. À medida que fui escrevendo, a raiva foi passando. Fui tentando ver pelo lado dela. Qual era o objetivo por trás da fala dela? Neste caso, era que conseguíssemos educar nossos filhos para que eles fossem responsáveis por eles mesmos e pelo mundo em que vivem. Eu consigo apoia-la neste objetivo. Nossos caminhos são diferentes, mas nosso objetivo é o mesmo. Eu comecei a pensar no que exatamente eu gostaria que ela não fizesse mais, e como eu me sentia a respeito. Me senti muito frágil, falando que estava mudando meu jeito de ser, e que queria tentar abrir uma ponte de diálogo com ela. Sabia que ela poderia responder o e-mail falando "problema seu", e seria doloroso, pois eu estava me expondo. Sabia que ela poderia nem responder o e-mail, e seria doloroso, pois eu me sentiria rejeitada ao me expor. Mas era melhor do que a raiva, muito melhor. Mandei.

No dia seguinte, ela me respondeu. Pela primeira vez, em cinco anos que convivemos, a resposta dela aos meus questionamentos foi positiva. Falou que sentia muito por ter sido agressiva sem notar, e que não usaria mais aquele exemplo. E que estava aberta para conversarmos sempre. Eu juro que ouvi coro de anjos dizendo "Aleluia". Essa deve ter sido a décima vez que eu batia de frente com ela, e todas as vezes tinham sido horríveis. Eu tinha uma raiva enorme desta pessoa. E, de repente, a raiva sumiu, e eu me senti próxima dela. Senti que podíamos conversar. Foi uma sensação muito, muito boa.

Isto tem dois meses. Neste tempo, decidi aplicar NVC a todos os momentos em que eu sentia raiva. Não funciona sempre, claro. Se eu beber álcool, então, fica muito mais difícil. Mas eu fui encontrando a paz. 

Quando alguém me fecha no trânsito, eu penso que talvez ele tenha um bom motivo para me cortar, que está com o filho gritando no banco de trás, que está estressado por causa de um problema de saúde na família, que está distraído por causa do telefone apitando a cada dois segundos. 

Quando alguém me critica, eu lembro que o que eu estou fazendo está incomodando aquela pessoa por motivos que são dela, não meus, e ela fica agressiva porque eu estou fazendo o que ela gostaria de fazer, mas não pode. Eu acolho o sentimento dela, ("Você acha que eu não deveria comer doce em plena terça-feira por que eu estou acima do peso? Eu estar fazendo isto faz com que você queira comer doce, mas você está de dieta, e isto te frustra?") e a raiva dela passa. A gente conversa sobre a pressão da sociedade para que estejamos sempre controlando o que comemos, e estamos do mesmo lado. 

Eu ouço um amigo que trabalha criando estratégias para vender cada vez mais, enquanto eu defendo um mundo com menos consumismo. Mas eu penso que ele quer promover seus gerentes, que vieram de família humilde, e que nunca tiveram acesso ao básico, que dirá ao supérfluo, e vejo que ele, também, quer um mundo melhor para todos. A gente conversa sobre como podemos evitar o desperdício na loja dele, e estamos do mesmo lado.

Bater de frente com alguém só vai gerar dor de cabeça. Mesmo pessoas com opiniões completamente diferentes das nossas também querem o mesmo. Ser felizes e queridas*. Comunicação violenta não resolve a vida de ninguém, não faz ninguém mudar de ideia, impede que você consiga o que quer e faz todo mundo se sentir muito mal. NVC talvez ajude. 

E eu sou, muito, muito mais feliz hoje.

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* PS.1: Um excelente documentário no Netflix, chamado "Happy" discute o que nos faz felizes. MUITO bom. Faz a gente repensar tudo, sobre como corremos atrás de coisas que deveriam nos fazer felizes, e não fazem, e ignoramos as que poderiam nos fazer felizes de verdade. Vi duas vezes no mesmo dia (uma sozinha, e outra em família).

PS.2: Este post foi publicado com o consentimento do meu marido, uma vez que estou contando publicamente como nossas discussões aconteciam. 


A Última Guerra

 O último mês viu o nascimento do ChatGPT . Pela primeira vez, um programa de computador é capaz de responder à perguntas como um ser humano...