30 de maio de 2015

Acima da Média

Esta semana o assunto entre as mães da turma da minha filha de 8 anos era o fato de que a escola parou de enviar um gráfico que mostrava as notas do seu filho comparada com a média da turma.

O ponto importante aqui é que a média neste caso era a média das notas dos alunos da turma, não a média para passar (15 em 25 no caso). Nos últimos dois anos, (1a e 2a série), as médias da turma era em torno de 22, ou seja, bem acima da média necessária para passar.

Eu me posicionei a favor da escola e comentei que tinha pedido que isto fosse feito no ano passado, porque vejo três grandes problemas com este gráfico:

1) Média é um lixo!

A média é uma medida muito pobre, como pode ser visto nesta tabela que eu criei com notas de 4 alunos (A, B, C e D) em quatro turmas (T1, T2, T3 e T4). As quatro turmas tem perfis completamente diferentes! Na primeira turma, todo mundo tirou a mesma nota. Na segunda, metade foi horrorosamente mal, enquanto metade foi perfeita. Na terceira turma, ninguém está muito bem ou mal e na última todo mundo está quase na média. Entretanto, todas as turmas tem a mesma média!

Média de quatro turmas, todas iguais a 15. As turmas são iguais?
Média só faz sentido quando os valores envolvidos estão dentro do que chamamos de "distribuição normal", ou seja, a maioria dos valores está próxima da média. Para calcular se a média faz sentido, foi inventada uma outra medida, chamada Desvio Padrão. O desvio padrão calcula o quão longe da média os valores em geral estão.

Com o desvio padrão melhora... um pouco.

Associando a Média e o Desvio Padrão já é mais claro o que está acontecendo! A T1 tem média de 15, mas seu desvio padrão é 0, ou seja, todo mundo tirou 15. Na turma 2, o desvio padrão é 15, ou seja, as notas variam de 0 (media - desvio padrão) a 30 (media + desvio padrão). A turma 3 é um pouco mais homogênea, e a turma 4 é ainda mais homogênea (quanto menor o desvio padrão, mais homogênea).

Ou seja, média sozinha não vale nada.

2) Quem está abaixo desta média da turma se sente mal na escola, desnecessariamente.

Crianças que tenham nota abaixo da "média" da turma, se sentem falhando. Mesmo que a nota seja bem maior do que o mínimo necessário para passar. Minha filha, por exemplo, ficou super chateada por ter tirado 21 em Artes, quando a média da turma foi 23. Eu expliquei para ela que notas acima de 16 já eram boas, acima de 20 eram excelentes, mas lá estava o gráfico, mostrando de forma clara para ela que ela estava "aquém".

E, como vimos acima, pela definição, se a distribuição for mais ou menos equilibrada, metade das crianças estará abaixo da média! Existirão crianças que, por motivos vários (serem mais novos, por exemplo), estarão abaixo da média da turma em todas as matérias, mesmo que tenham nota suficiente para passar de ano. Imagina a tristeza!

3) Para quê incentivar competição na educação?

"Se meu colega tira uma nota maior que a minha, ele aumenta a média, e eu posso ficar abaixo".
"Meu filho está sempre acima da média em todas as matérias".

Estes não são sentimentos bons. Nem úteis. Nossa sociedade complexa, desafiadora, e cada vez mais egoísta, não precisa que coloquemos mais lenha nesta fogueira.

Existe um ramo da matemática aplicada, chamado Teoria dos Jogos, que estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno.

Na Teoria dos Jogos, estratégias diferentes devem ser usadas para dois tipos diferentes de situações:
  • Zero sum games (Jogos com soma igual a zero): situações onde alguém só pode ganhar se outro perder. Competições esportivas, por exemplo, são "zero-sum", para alguém ganhar, o outro tem que perder.
  • Non-zero sum games (Jogos com soma diferente de zero): situações onde quando um ganha, outro também ganha, ou pelo menos não perde. Situações onde o todo é mais do que as partes. Cooperativas, mutirões, associações, são exemplos.
Educação é "non-zero sum", quando um ganha, todos ganham. Nossos filhos tem talentos especiais, únicos. Trabalhando juntos, ajudando os que tem mais dificuldade, todos ganham. Estimular competição neste tipo de situação só torna a vida de todos pior.

A maioria das escolas hoje defende (corretamente) que excelência nas notas não é previsão de sucesso, inteligência, ou qualquer outra forma de "superioridade". Ter um mínimo para passar é fundamental para avaliar o desenvolvimento da criança. Além disto, cada criança pode comparar as próprias notas ao longo dos bimestres para tentar melhorar em alguma disciplina.

Isto é uma comparação justa. A média não.

------
PS: Obrigada, Maple Bear Santa Lúcia em BH, por ter feito esta mudança, que combina perfeitamente com os princípios construtivistas que a escola defende.

4 de maio de 2015

Espécie: Ingênuo Bem Intencionado. Habitat natural: a internet. População: Em risco de extinção.

Muito se discute e fala a respeito dos Trolls, aquelas criaturas raivosas que reclamam, discutem e xingam nas áreas de comentários da internet. Mas existe um tipo muito mais curioso na internet, e muito mais raro, o Ingênuo Bem Intencionado.

Presente em quase todos os sites que permitem comentários, o Ingênuo Bem Intencionado é sempre calmo, conciliador, simpático. Raridade completa na fauna da internet, seria um excelente moderador, se fizesse a mínima ideia do que é a discussão em questão.

Acompanho sites sobre Parto, onde a defesa de Cesárea x Parto Normal é sempre acalorada, carregada de sentimentos fortes e, não raras vezes, de insultos. Geralmente o Ingênuo Bem Intencionado se manifesta assim:
A: - Parto normal é coisa de india sem cultura!
B: - Cesárea é coisa de mãe sem coração!
A: - Você quer que seu neném morra com o cordão no pescoço!
B: - Você não liga se seu neném for maltratado na hora do parto!
Ingênuo Bem Intencionado: - Gente, cada uma tem direito a escolher. Não precisamos brigar! :)
Outro lugar irresistível são posts do Facebook com piadas meio agressivas:
Piada: O que são 100 advogados no fundo do mar? Um bom começo.
Ingênuo Bem Intencionado: Ooooo, que maldade! Meu tio é advogado, e ele é uma pessoa ótima. Ele não sabe nadar. Vocês não deviam brincar com estas coisas... :( 
Piada: (foto de uma pessoa no sofá lendo no celular) "Você já está vindo?" (e respondendo com uma cara sarcástica) "Já, estou no ônibus."
Ingênuo Bem Intencionado: Se você não queria encontrar com ele, era só dizer. Não precisa mentir. :(
Quando eu imagino a pessoa por trás destes comentários, eu sempre me encanto com a inocência desta pessoa, que, afinal de contas, está na internet! Imagino uma velhinha de cabelo branquinho, que ganhou um iPad da filha para ver as fotos da netinha, que aprendeu a digitar em máquina de escrever, nos olhando do alto dos seus 80 anos de sabedoria, e pensando, "Meninos, prá que brigar..."

Imagino aquele senhor que vendia picolé na loja da esquina da cidade de interior, que sempre estava dormindo quando eu ia comprar picolé de amendoim com coco. Imagino que o filho dele colocou um computador na loja para ele usar o Excell para fechar as contas no final do mês. E quando este senhor descobriu que o jornal dele que parou de chegar na porta foi parar "lá", na internet, ele aprendeu sozinho a entrar na área de comentários. Mesmo sem saber quem é Ahmadinejad e como é o Irã, escreveu solene sob a notícia:
Ahmadinejad diz que iranianas deveriam se casar aos 16 anos  
Ingênuo Bem Intencionado: Não concordo. 16 anos é muito cedo, as meninas deviam ver um pouco do mundo e se formar antes de casar.
É difícil imaginar alguém novo fazendo um comentário destes. Meninos e meninas de 9 anos hoje já tem Twitter, Instagram, grupo do Watsapp e saíram do Facebook porque os pais entraram. A era desta ingenuidade pura, desta bondade simples, pertence à outra época, onde a informação era difícil, e seus amigos estavam na casa do lado, na sua rua.

Não estou defendendo os "velhos tempos", porque é esta mesma quantidade brutal de informação que torna possível sabermos de grandes ideias do mundo todo (TED), comunicarmos com nossos parentes que estão longe, conhecer pessoas e lugares que nunca poderíamos ir, ler e ver mais em um ano do que na vida inteira de nossos pais.

Mas me parece que estamos vivendo também na era do sarcasmo, da agressão, da dificuldade de ouvir. Temos tantas formas de falar para o mundo, mas me parece que estamos gritando para o nada. E aí, o Ingênuo Bem Intencionado vem e mostra a poesia do simples. Cala a discussão. Para no vazio. Não tem como continuar a discutir, brigar. Ele tem razão.

Não precisamos brigar. Não devíamos desejar que advogados morressem. Não precisamos mentir. As meninas deviam ver o mundo e se formar antes de casar. É simples.

Agora só temos que fazer acontecer.


"É mais importante ser gentil do que ser inteligente ou bonito."
Ricky Gervais como  Derek.

---------


BÔNUS: Origens do Ingênuo Bem Intencionado

Acredita-se que o ancestral mais conhecido do Ingênuo Bem Intencionado seja o Doido de Palestra. O Doido de Palestra é aquele sujeito que passa a palestra inteira ouvindo, concentrado, só esperando a hora das perguntas. Depois de uma ou duas perguntas relevantes, ele levanta a mão e faz um longo comentário, que inclui parte da vida dele, completamente sem sentido, e, no final, pergunta ao palestrante o que ele acha disto.
Espécime real encontrado em campo: 
Palestrante:  - Esta plataforma é um sistema que permite que empresas cadastrem seus problemas tecnológicos e que outras empresas possam entrar em contato para resolver estes desafios, através de um cadastro contendo as informações... (mais duas horas de detalhes técnicos)... Alguma dúvida? 
Doido de Palestra: - Eu tenho uma. Eu sei que existe, porque eu li na internet, que tem um negócio chamado ar líquido. Você já ouviu falar? 
Palestrante: - hummm... (olhar confuso) 
Doido de Palestra: - Então! O maior desafio tecnológico hoje é o armazenamento de energia, certo? O ar líquido armazena 800 vezes mais moléculas do que o ar normal. Se a gente armazenar energia no ar líquido, vamos ter 800 vezes mais energia! Eu sei que vai dar certo, porque meu primo é engenheiro e me falou que quem já tentou fazer isto foi calado por forças do governo, que querem a energia cara. O que você acha desta ideia?
Palestrante: - Mais alguma pergunta? 
-----
Se gostou deste post, não deixe de assistir o excelente Derek, o único seriado que eu conheço sobre a bondade. Também não perca os TEDs, que são palestras de 15 minutos feitas no mundo inteiro contendo "Ideias que valem a pena ser disseminadas", sobre todos os temas possíveis, como biologia, artes, engenharia, culinária e mágica. Por fim, a palestra acima foi sobre a plataforma iTec, uma plataforma de verdade na internet que permite que empresas contem seus problemas tecnológicos e empresas de tecnologia postem soluções, de forma a aproximar pesquisa e indústria, universidades e sociedade, problemas e soluções.

Se não gostou deste post, trolla nos comentários! :)

8 de março de 2015

A mensagem que eu queria no Dia da Mulher


Neste dia da Mulher eu não te darei flores, nem te chamarei de linda, nem farei poemas fofos com palavras como amor e forte. 

Não te classificarei pela sua ocupação profissional (enfermeira, mãe, policial) nem pelas qualidades que você tem aparentemente só por ser mulher (paciente, atenciosa, carinhosa). 

Neste dia da Mulher, eu te desejo pagamento igual ao dos homens, te desejo a sorte de não ser uma das sete mulheres em cada dez que sofrerão algum abuso sexual durante a vida, te desejo que você seja respeitada em suas escolhas sexuais, profissionais e afetivas, e que seu corpo, sua cor e seu peso não sejam medida do seu valor. 

Por fim, te desejo a amizade e a solidariedade de todas as mulheres na sua vida, para que esta luta seja feita ao lado de quem você ama. 

Feliz dia da Mulher.

20 de fevereiro de 2015

50 tons de cinza: os livros, o filme, e como tudo isso tem a ver com a propaganda da Dior

Como já publiquei aqui,  eu li 50 tons de Cinza. Acabei lendo os três livros, e agora vi o primeiro filme. Mudei muito de idéia desde que escrevi aquele primeiro post. 

O livro (e o filme) é muito machista, a personagem principal é uma tonta, o poder do dinheiro como arma de sedução/convencimento é muito claro. Assim como o livro é mal escrito, o filme é mal filmado (tem uma cena em que ela chora, e a chuva escorre na janela junto, beeeemmmm piegas).

Mas eu não conseguia parar de ler, tanto que acabei lendo os três. E achei excitante sim (só o livro. O filme é uma grande bobagem [detalhes abaixo]). Pelo menos para mim, o livro trouxe:
  • A oportunidade diária de pensar em sexo, o que é muito, muito, muito, muito difícil quando se tem duas filhas, casa e trabalho enchendo o saco o tempo todo.
  • A descrição literal de cenas de sexo explícito, o que é raro na nossa cultura, onde as opções são romances água com açúcar e pornografia. Concordo que as cenas do livro são quase como pornografia, mas, acreditem ou não, Anastacia sempre sente muito prazer nas transas com o Gray. Sempre achei que nos romances faltava pimenta, e na pornografia sobrava sofrimento da mulher.
  • Sobre o sado-masoquismo mostrado no livro (e muito mais diluído no filme) eu só fui entender por que me dava tesão quando li outro livro: “O Mito da Beleza”. 
A submissão feminina é um fetiche que está em toda a nossa sociedade. Basta ver qualquer revista de moda, propaganda de qualquer coisa, para ver como o “sexy” geralmente é uma mulher sendo agarrada meio a força, ou assustada, ou violentada.

Como exemplo, colei abaixo uma pesquisa randômica que fiz. Entrei no Google, digitei "Dior", fui nas imagens. Faça o mesmo para marcas famosas de roupa, perfumes, e vai se espantar com o resultado.

Pesquisa randômica 1

Pesquisa randômica 2

Pesquisa randômica 3


Não achamos isto sexy porque É sexy. Achamos sexy porque desde pequenas somos ENSINADAS de que isto é o sexy. Onde estão as imagens de pessoas que se amam fazendo sexo de forma consensual, com prazer mútuo? Em lugar nenhum (como já constatei aqui). 

Então, depois de ler o “O Mito da Beleza”, confesso que perdeu a graça. Quando entendi que o sentimento de tesão que eu sentia não era meu, era imposto pela propaganda, a ilusão se desfez, e a idéia de que isso era sexy desapareceu.

Para quem não leu os livros,  ainda acho que vale a pena ler pelo menos o primeiro livro (e é pena mesmo, porque é dureza). Nem que seja para entender como a mulher é representada, o fenômeno de popularidade que foi e testar as próprias reações (vendo como, mesmo sem querer, somos influenciadas pelo que a mídia nos mostra diariamente). 

Sobre os filmes? Vi o primeiro, sozinha, por absoluta falta do que fazer (estava em um shopping esperando meu marido, em uma cidade estrangeira). Nem a parte do sexo quente (no caso, morno) salva, na minha opinião. Os dois atores são fracos. Um bom texto na mão deles já seria difícil decolar, este texto linear, fraco e sem grandes falas, fica monótono. Segue ao livro à risca, e não toma nenhuma liberdade artística de tentar salvar o que é, no fundo, uma história sobre o poder do dinheiro.

Dinheiro, que, como disse uma grande amiga, não vou continuar a dar para financiar este tipo de produção. Por isto, não devo ver os outros dois. Mas fico feliz que a polêmica em torno dele permita que possamos discutir mais abertamente feminismo, propaganda, violência e sexo.

30 de janeiro de 2015

O Grande Deus das Formigas

Já ouvi muitas vezes pessoas dizendo que não podemos entender Deus, e suas razões, da mesma forma que as formigas não nos entendem. Deus é grandioso demais, complexo demais, para nossas mentes simples.

Explorando o outro lado esta ideia, e se Deus realmente enxergar os seres humanos como nós vemos as formigas?

Ontem, enquanto tomava banho, fiquei impassível vendo uma formiga se afogar no fundo da banheira. Eu poderia tê-la salvo facilmente. Provavelmente ela estava em sofrimento, chamando por ajuda. Talvez até tivesse alguma consciência de que eu estava ali, ao seu lado, decidindo a qualquer momento se ela deveria viver ou não. Mas não fiz nada.

Existem, como ela, milhões de formigas. Que destroem coisas que eu criei. Que invadem meus armários e comem minhas coisas. Que são exatamente iguais umas às outras para mim. Com as quais eu não me importo.

O Grande Deus das Formigas, é uma grande quantidade de entidades, os humanos, que são tão responsáveis pela criação do Universo quanto eu sou responsável pela criação das montanhas de Minas Gerais. Este Deus está mais para um bando de gerentes, que mudam as coisas de lugar, e as formigas atrapalham.

De vez em quando, grandes desastres vem atingir a população, como a enchente que provoquei na minha jardineira. Eu só queria molhar as plantas, mas esqueci a mangueira ligada por 30 minutos. O vizinho de baixo ligou avisando que estava transbordando. Chequei lá e vi uma dezena de formigas na borda da jardineira, tentando voltar, perdidas, para o fundo da terra. Umas duas boiando em pequenas ilhas que sobraram, outras agarradas à folhas. Na cabeça (?) delas, provavelmente se sentiam salvas por milagre. As bolhas de ar subindo no canto da jardineira me lembravam dos corredores no fundo da terra, onde a rainha e muitos dos seus filhotes e ovos provavelmente morriam afogados. Meu sentimento? Agora vou poder plantar tomates que não serão contaminados pelo mofo do qual as formigas se alimentam.

Não estou aqui defendendo que convivamos em paz com as formigas. O mesmo raciocínio se aplica à mosquitos, baratas, bactérias. O que estou querendo dizer é que, se Deus existe, é assim tão grandioso, não é muita pretensão nossa achar que ele se importaria com uma praga de milhares de insetos?

20 de novembro de 2014

Feminismo Infantil

Uma das maiores discussões hoje em dia sobre criação dos filhos é o balanço entre colocar limites e aplicar "castigos". Em um post muito interessante,  a Dra. Laura Markham defende que a gente não pode mudar os outros, mas a gente pode mudar o que eles querem, através de diálogo, compreensão e opções.

Concordo plenamente com ela de que a melhor maneira de resolver qualquer conflito (com filhos, ou com qualquer outra pessoa) é descobrir o por que do conflito, entender as razões do outro, e tentar achar uma solução que agrade a todos. 

Mas esta atitude tem que ser adaptável, principalmente quando o assunto é violência entre crianças. Eu percebo que nossa sociedade tem uma atitude muito leniente com relação à violência, principalmente entre meninos. Aliás, se o menino não for um pouco violento, os pais se preocupam. O menino que apanha na escola é visto com maus olhos, tem que aprender a se defender, o que bate “é natural da idade, quando ele crescer melhora”. Isto não é um comportamento isolado, de um menino. Vi acontecer dezenas de vezes nestes oito anos desde que minha filha mais velha nasceu.

Como mãe de duas meninas que apanham de meninos pelo menos uma vez por mês, é muito doloroso observar que minhas filhas aprendem que apanhar de meninos é natural da idade. 

Lembro quando minha mãe tentou argumentar com um menino que falou para ela: “Vou machucar sua filha”. A Alice tinha 3 anos, e estava na piscina de bolinhas de um shopping. Minha mãe, achando que ele estava só provocando, respondeu: “Ela não é minha filha, é minha netinha. E não machuca ela não, você é grande, ela é pequena.” O menino virou as costas, e pulou com os dois pés em cima da Alice. Minha mãe ficou chocada (óbvio). Perguntou onde estava a mãe dele, ele respondeu: “minha mãe não está aqui e minha babá está fazendo compras”. O que restou para minha mãe fazer? Consolar Alice, que, aos prantos, não queria mais brincar. Agora, se minha mãe tivesse tomado uma atitude mais enfática, será que o resultado seria o mesmo?

Está na hora de aplicarmos às meninas os mesmos direitos das mulheres. Ninguém tem o direito de bater em outra pessoa.

Por isto, defendo que tem horas que, para impedir um comportamento agressivo, a gente tem que ser mais direta. Prefiro ensinar minhas filhas que, se alguém tentar bater nelas, terá alguém mais forte para defendê-las, do que deixar que elas apanhem para depois ouvirem um pedido de desculpas, muitas vezes vindo da mãe da criança.

E o que eu chamo de uma atitude mais direta? Claro que eu não vou bater ou ameaçar fisicamente a criança (afinal, eu acabo de defender que ninguém tem o direito de fazer isto). Primeiro vou tentar impedir a violência antes de acontecer (segurando o braço, ou afastando minha filha), eu vou falar sério com o agressor, muito sério. Vou ficar brava sim. Não vejo motivo para esconder minha raiva, uma vez que o que a criança está fazendo é muito errado. Se o responsável estiver por perto, vou pedir a ele que faça isto. Se não estiver, eu mesma vou fazer. 

Impedir a violência contra minhas filhas impede que elas sintam a dor que vem associada com ela. Ser mordida ou agredida uma vez, em um parquinho, pode não significar muito na vida delas. Mas, quando estas agressões acontecem com frequencia, vinda de diferentes meninos, na escola, no parquinho, com amiguinhos do prédio, eu tenho certeza de que isto deixa uma marca. 

Em raríssimas ocasiões eu vi uma mãe realmente mostrar para o filho agressor que a atitude dele era inaceitável. Na maioria das vezes, ela pede desculpas pelo filho, fala com voz doce: "não pode morder o coleguinha..." e pede para ele beijá-la. Não quero que este menino beije minha filha após agredí-la! Ele provavelmente também não quer! Ele agrediu ela por algum motivo, e é este motivo que tem que ser entendido, e solucionado melhor.

Eu sei que a mãe do menino que bate realmente não quer que isto aconteça. Na grande maioria das vezes, está triste e envergonhada. Mas também não quer tomar uma atitude mais séria e se sentir rígida demais, que não ouve o filho, não o entende. 

Para mim, a única coisa que vai fazer ele parar a agressão é mostrar, de uma forma clara para ele, que esta atitude é inaceitável. Mesmo. Retirá-lo do parquinho, levantar a voz com ele, tirar um brinquedo favorito funcionará muito mais, se ele for pequeno, do que palavras suaves que ele não entende completamente ("desculpa", "não vou fazer mais").

Eu acredito nisto porque já estive do lado agressor, quando minha filha agrediu um colega, não fisicamente, mas estragando o material escolar dele, perseguindo ele, convencendo outros colegas a tratarem o menino mal. Quando eu fiquei sabendo, falei com ela como eu estava muito triste e com raiva da atitude dela, que isto era inaceitável e suspendi as atividades extra-curriculares dela. Conversei na escola, e combinei com a coordenadora pedagógica que, quando a agressão parasse, e ela pedisse desculpas sinceras a ele, ela poderia voltar. Além disto, procuramos ajuda profissional para entender por que ela estava com tanta raiva dele. Depois de dois meses neste processo, a agressão parou, e hoje ela e o menino são amigos.

Eu a ouvi. As razões dela explicam, mas não justificam. Apesar de estar do lado dela o tempo todo, eu deixei bem claro que o que ela estava fazendo era injusto com ele, provocava sentimentos ruins em todos, e era contra os nossos valores de amizade e respeito ao próximo. Eu não acho que esconder, ou amenizar nossos sentimentos (no caso minha tristeza e raiva por saber que ela estava sendo injusta e cruel com um colega) seja educativo para nossas crianças. Elas precisam saber que temos valores sérios, e que existem coisas que são descuidos leves ("não põe papel de bala na boca") e assuntos sérios ("não bate no coleguinha"). 

Se as crianças não aprenderem pela nossa reação a diferença, como aprenderão?

2 de outubro de 2014

Tomo Prozac ou Compro uma Bicicleta?

Tenho estado muito triste nos últimos tempos. Diversos projetos de vida não saíram como eu esperava, e a vida perdeu a graça. Depois de conversar com marido, família, amigos, fui ouvir a opinião de um especialista, psiquiatra.

Durante a consulta, ele faz diversas perguntas para poder fechar um diagnóstico. Pede para eu responder apenas "não", "leve", "moderado" ou "forte". Simples. Só que não.

Tentei responder de forma simples às perguntas, mas...

- Você tem dificuldades de dormir?
Resposta: Não. (Não, desde que cortei a cafeína da minha vida, mas tinha muita insônia quando fico preocupada, mas meu vizinho faz festa quase toda semana, e tenho rinite alérgica que me faz tossir quando deito...)

- Você se sente cansada?
Resposta: Moderado. (Claro! Mas eu toco uma casa, emprego e duas filhas sem empregada)

- Você às vezes tem vontade de sumir?
Resposta: Moderado. (Que mãe que nunca?)

- Você está insatisfeita com seu trabalho/marido/filhos?
Resposta: Forte. (Troquei de área de atuação recentemente, é uma experiência, estou me adaptando ainda)
Resposta: Forte. (Mas ele chegou a fazer terapia também, é um problema com causa clara, que aconteceu há alguns meses)
Resposta: Não. (Minha relação com minhas filhas está muito boa, mas tente você cuidar de duas crianças sem suporte da sociedade, sem creche, sem van para buscar na escola, com meus pais saturados de netos, a menorzinha na fase da birra e a mais velha querendo ser adolescente antes da hora)

Intrigantemente, perguntas mais barra pesada, são mais fáceis de responder.
- Você pensa em se matar?
Resposta: Leve. (Como é que explico que não faço planos, penso nas pessoas que fizeram isto com uma pena pelo estado de desespero delas e acho que jamais faria isto. Não quero morrer, quero mudar de planeta!)

E, às vezes, sinto que o decepciono:
- Seu nível de energia, como está?
- Ótimo, na verdade! Desde que parei de tomar café, eu...
- Não, nas últimas duas semanas, sem contar a coisa do café.
- Então, está muito bom, estou animada, dormindo às 10, acordando às 8, pronta pra...
- Mas fica na cama, fritando, tendo pensamentos?
- Não, estou bem mesmo.
- Hum. Não sei como você dá conta, com tudo que está passando.

Durante o processo todo, choro muito. Claro, como disse, estou triste. Mas estou triste com uma coisa real e concreta: a injustiça do mundo. A dificuldade que é viver em um mundo machista, onde minha capacidade é ignorada continuamente e sou julgada pela minha aparência e meus talentos domésticos/de mãe. Saber que minhas filhas estarão expostas sempre à violência de gênero, com uma chance indecente de serem estupradas, ou sofrerem distúrbios psicológicos por causa do padrão de beleza impossível imposto à elas. A consciência diária de que minha filha loira e de olhos azuis é tratada diferente da irmã, morena de olhos castanhos. As conversas sobre a eleição, onde uma classe média manipulada pela mídia critica um programa de ascensão social que paga mensalmente para famílias que não tem o que comer menos do que eles gastam em um almoço de domingo.

Saio de lá com um diagnóstico de depressão grave. Devo ter feito uma cara de "Sério? Eu?", que fez com que ele me perguntasse:
- Por que você está tão resistente à este diagnóstico de depressão? Isso é uma boa notícia. Sua vida vai melhorar. A dor que você está sentindo vai passar.

Me senti como um Neo (do Matrix) às avessas, ele me oferecendo uma pílula mágica (o antidepressivo) para me colocar de volta na ilusão quentinha e confortável de que está tudo bem. Eu sei que ele quer me ajudar. Eu sei que ele acha que eu vou me sentir muito melhor.

Fico por um tempo, em silêncio, pensando nos homossexuais que eram diagnosticados como doentes, há não muito tempo. Nos EUA só em 1973 parou de ser uma doença. No Brasil só em 1985.

Enquanto isso, a depressão foi sendo largamente diagnosticada, principalmente em mulheres:


FONTE: http://www.cdc.gov/nchs/data/databriefs/db76.pdf

Eu tenho certeza de que remédios anti-depressivos salvam vidas, que seriam perdidas pelo suicídio, pela apatia, pelo desespero. Mas quando um quarto das mulheres acima de 40 anos está tomando remédio, isso é um sintoma claro de que este não é um problema pessoal. Assim como o surto de obesidade não é culpa de cada gordinha, a causa dos sintomas destas mulheres não pode ser apenas o balanço químico imperfeito do cérebro delas.

Não estou dizendo que estas mulheres e crianças não estão deprimidas. O que eu questiono é o por que. A justificativa para o uso de antidepressivos é que o cérebro está com um imbalanço químico que gera o sentimento de infelicidade. Uma explicação muito mais óbvia é que estas pessoas estão infelizes.  Há uma teoria de que "a manifestação mais cruel da criatividade reprimida é a depressão.". Em uma sociedade que reprime a mulher de todas as formas, através da cultura da violência, da beleza inalcançável, do papel submisso e da sexualidade como única utilidade da mulher, não me espanta que, ao chegar em uma idade onde a mulher não tem mais valor (por estar "velha", dentro do nosso culto à juventude), ela entre em depressão.

Eu concordo completamente com o diagnóstico da causa da minha tristeza: falta de componentes químicos que produzem a felicidade no meu cérebro. Mas eu discordo do tratamento. Tomar por via oral componentes químicos que farão eu me sentir mais feliz é, para mim, a mesma coisa que encher a cara de álcool, chocolate ou roupas novas. Não ataca a raiz do problema. Só vai me manter sedada por um tempo, e vou ter que tomar para o resto da vida (mais de 60% das pessoas tomando antidepressivos já tomam há mais de dois anos, com 14% tomando há mais de 10 anos).

Decidi me tratar da depressão sim, mas de um jeito que eu acho que vai atacar as causas, não o efeito. Não consigo mudar o mundo todo. Mas começo comigo. A expressão da criatividade (como na escrita), os exercícios físicos aeróbicos (como andar de bicicleta) e atividades prazeirosas como abraços, sexo e risadas são antidepressivos. Reprimir meus sentimentos gera depressão, ansiedade e raiva. Lutar pelas causas que acredito, conversar com meus amigos sobre em quem eu vou votar, discutir com minhas filhas feminismo, empodera a todos, e a gente fica um pouquinho mais perto de um mundo mais justo.

PS: Tem umas coincidências na vida que trazem uma clareza enorme. O post do Sakamoto de hoje "Quando crescer, quero ser a mulher do comercial de TV", com muito bom humor, me deu apoio e a certeza de que estou no caminho certo.

A Última Guerra

 O último mês viu o nascimento do ChatGPT . Pela primeira vez, um programa de computador é capaz de responder à perguntas como um ser humano...