11 de agosto de 2020

Diário de uma Savant, ou como uma brasileira vive no Canadá

“Savantismo: A síndrome do sábio, síndrome do idiota-prodígio ou savantismo (do francêssavant, "sábio") é considerado um distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência. Tais habilidades são sempre ligadas a uma memória extraordinária, porém com pouca compreensão do que está sendo descrito.” [https://pt.wikipedia.org/wiki/Savantismo]

Translation Service Essentials—Why Not Just Use Google Translate - Ulatus  Translation Blog

Viver de turista em um país é completamente diferente de morar nele. Principalmente se você já tem uma vida estabelecida. Começando jovem, do zero, é fácil. Você ainda não sabe nada, então aprender a viver está no pacote.

Mas, quando você tem que adaptar a uma nova vida, e desaprender o que já sabe, e aprender a viver de uma forma diferente, é bem mais complicado. Por isto, neste post, eu vou dividir com você tudo que aprendi por aqui nestes meses que eu queria que alguém tivesse me contado.

Parte I - Eletrodomésticos

Máquina de Lavar Louça

Nós temos uma Bosch. Depois de 7 meses morando aqui, os copos e talheres de inox foram ficando cada vez mais embaçados, mesmo com a gente usando o sabão certo. Descobrimos então que a água de torneira daqui pode ser uma tal de "hard water", que é uma água cheia de minerais. Soluções possíveis (usei uma combinação das 3)? 

  1. Lavar a máquina com vinagre no lugar de sabão uma vez por semana
  2. Usar uns tablets de limpeza de máquina. O do Finish custa uma fortuna, CND30 por 3 tablets, teoricamente 3 semanas, e achei que o vinagre foi mais eficiente. O genérico da Amazon é CND15 por 12 tablets, mas não testei ainda.
  3. Lavar a máquina com uma esponja com um pouco do Líquido secante. Serve para limpar os copos também, mas tem que enxaguar bem, porque o negócio é super concentrado.
  4. Existe uma programação que aparece no painel chamada "Ch" que quer dizer "Child Safety", ou seja, impede que a criança mude a programação. Se não tirar isso, você não consegue também. Tem que olhar no manual de cada máquina como remover.

Máquina de Lavar Roupa

  1. Água quente vai encolher suas roupas. Água fria não vai lavar direito. Você escolhe.
  2. De mês em mês, olhe dentro da máquina e na borracha da porta para ver se não está acumulando sabão líquido velho. Vai dar um cheiro de mofo e podridão horrendo. Tem que limpar com um pano úmido.

Secadora de Roupa

  1. Tire o "lint". Toda vez que usar a secadora. Passamos três meses lavando e secando roupa sem saber que precisava de limpar o filtro da secadora a cada vez que usava. O resultado poderia ter sido um incêndio. Descobrimos isso porque a máquina estava levando 3 horas e meia (três ciclos completos) para secar duas camisetas. Depois que limpamos o filtro, passou a secar em 20 minutos 
  2. Roupas brasileiras encolhem na secadora. Use "no heat" ou seque pendurando como no Brasil (impossível durante o inverno).
  3. Casacos de lã, pompons e peles no colarinho derretem na secadora! Estraga as peles todas. Tem que remover (se possível), ou colocar a secadora só na ventilação "no heat".
  4. Toda vez que colocar roupa na secadora, você tem que adicionar um ou dois "Dry Sheat" (ver figura abaixo). Se não colocar, você vai tomar choques absurdos, principalmente em roupas de lã e toalhas de mesa sintéticas.
Eu uso esta marca, mas você pode escolher a que gostar mais.

Parte II - Roupas


Aqui você descobre que para se vestir o importante é a temperatura do “feels like”, não a que aparece no topo. Pode estar -2oC, mas o “feels like” de -17oC. Ignora o -2oC e confia no -17oC. 

    Feels like. Sempre.

Inverno

  1. As roupas de frio brasileiras são inúteis aqui. Vão encolher na primeira lavada, ou você vai morrer de frio. Não adianta fazer 3 camadas. Você vai assar quando entrar no metrô ou lugares fechados.
  2. Aqueles casacos pesados com pelo no pescoço são lindos e quentinhos, mas para andar o dia inteiro não rola, são muito pesados. Só compre se for para ficar linda. 
  3. Para o dia a dia o melhor é aqueles que você parece uma salsicha, recheado de pena de ganso. São leves e quentes a beça. É essencial que o casaco seja fácil de abrir e fechar. O zíper deve ser bem grande para você conseguir fechar de luva. Tem uns com preço ótimo na UNIQLO, no maior shopping de Toronto, o Eaton Center. Você vai gastar uns CND100, mas não vai se arrepender.
  4. Na hora de entrar em sair dos lugares, todo prédio tem duas portas na entrada. Entre as duas é onde você põe/tira luva, touca, cachecol, etc. É tipo um purgatório entre o céu quentinho (dentro) e o gelo dos infernos (fora). 

  5. Acima de 0oC, pode colocar uma camada de roupa quente (um casaco salsicha, ou um suéter). 
  6. Entre 0 e -5oC (“feels like”, sempre), põe um suéter por baixo do casaco e uma calça mais grossa (jeans) e tenha dois pares de luvas leves (uma vai cair na água e molhar). 
  7. Entre -5oC e -15oC, põe a legging aquecida por baixo da calça, as luvas tem que ser impermeáveis, o suéter vira blusa de lã, a bota impermeável é essencial, e cobre a cara com cachecol ou com um protetor de rosto, senão sua bochecha congela. 
  8. Entre -15oC e -20oC, coloque tudo que tem. E saiba que não vai ficar mais de 20 minutos do lado de fora. 
  9. Abaixo de -20oC só Jesus resolve. Se quiser fazer esportes de neve, aí tem que ter o Snowsuit. Nós compramos os nossos adultos na Sportscheck (https://www.sportchek.ca/e o infantil na Osh Kosh B'Gosh (https://www.cartersoshkosh.ca/). Rodamos por dias antes de achar. Tem que estar na época certa, senão não acha.

Verão

  1. Sim, tem. Sim, é quente a beça (ver os 34oC acima). Aqui suas roupas brasileiras vão valer a pena. Short, sandália, vestido, top. 
  2. A parte boa é que Toronto pelo menos é super relaxada com vestuário (Vancouver eu achei mais "stylish"), então use o que quiser. Ninguém liga.
  3. A galera liga tão pouco, que vc vai ver gente no parque tomando sol de topless e de calcinha e soutien. Normal. Todo mundo ignora.
  4. De novo, a UNIQLO é uma boa opção. Roupa barata, tem algumas coisas mais estilosas.

Parte III - Convívio Social

  1. Fale baixo. Muito mais baixo do que você já falou na sua vida. Toda vez que eu ouvi alguém falando alto desde que me mudei, ele era brasileiro.
  2. Transforme todas as suas frases / ideias / sugestões em perguntas. Ao invés de falar: "Eu acho que você devia fazer isto.", diga "Eu estou interessado em saber o que aconteceria se fizéssemos isto."
  3. Nunca fale de você mesmo diretamente. Se comprou uma roupa nova, não chegue contando: "Olha que legal o meu vestido que eu comprei ontem." Ao invés disto, elogie a roupa da outra pessoa:  "Que bonita sua roupa hoje." Ela vai falar "Obrigada! Seu vestido também é bonito." E aí você fala: "Obrigada! Comprei ontem." Mas se puder evitar essa conversa toda, é melhor ainda.
  4. Continuando no item 3, se alguém te elogiar ou perguntar algo, sempre pergunte "And you?" de volta. Por exemplo, se a pessoa perguntar: "Como foi seu final de semana?", você responde: "Foi bom, obrigada. Fomos ao parque fazer um picnic. E o seu?" Evite histórias longas e detalhadas.
  5. É costume tirar o sapato quando for entrar em casa, na dos outros inclusive. Mas aqui, estranhamente, a gente não tem chulé. No inverno dá um cheiro estranho de cachorro molhado na entrada da casa, por causa da neve.

Parte IV - Emprego

  1. Transferência de habilidades (skills transferability): A maioria dos empregos qualificados aqui requer licenças, treinamento ou formação canadense. Eu por exemplo, fui professora de faculdade, de extra-curricular e engenheira no Brasil. Aqui nada disso conta. Para ser professora de ensino infantil, eu tenho que ter o curso do OCT (Ontario College of Teachers). Para ser engenheira, tenho que passar na prova do conselho de Engenharia (tipo um CREA) para a área específica que eu quero atuar. Para dar aula em Universidade tenho que ter meu diploma validado aqui. Então, simplesmente conseguir emigrar não resolve.
  2. Procure ajuda! Tem um monte de organizações que podem te dar informações, ajudar com currículo e ajudar a encontrar vagas. Quando eu cheguei, a Assistente Social da escola da minha mais nova marcou uma reunião comigo e me ajudou muito. Atualmente estou contando com a ajuda da "Skills for Change" (https://skillsforchange.org/) para tentar achar emprego.
  3. Esteja preparado para ralar muito. A concorrência é grande, altamente qualificada, competente e voraz. 
  4. Cuidado com sites de emprego como o Indeed e LinkedIn. Tem um monte de emprego falso lá. Vale mais a pena procurar as empresas que você gostaria de trabalhar e aplicar diretamente no site deles. E o processo é menos automatizado, então seu currículo talvez seja visto com mais tempo.
  5. Saiba que você vai começar por baixo. Era gerente no Brasil? Aqui vai começar como caixa. Era dono do próprio negócio? Aqui vai ser vendedor. Você não tem "canadian experience", então eles não tem como saber se você é competente. Empregos de mais valor e responsabilidade geralmente são ocupados por promoções internas.
  6. Faça trabalho voluntário. Isso foi algo que a Assistente Social me indicou, e eu agora estou fazendo, e vale muito a pena. Primeiro, porque é bacana demais. Segundo, porque você faz conexões em torno de um interesse comum. Terceiro, porque você pode aprender sobre relações sociais e semi-profissionais em um ambiente sem pressão. Quarto, porque você pode citar como experiência profissional (desde que indique que é como voluntário) no seu currículo. Quinto, porque no Canadá as pessoas valorizam demais voluntariado, mostra que você se importa com a comunidade. Todo mundo aqui voluntaria para alguma coisa.

Parte V - Comida e Saúde

  1. Todo mundo é fit. TO-DO MUN-DO. Eu sou sobrepeso (no Brasil sou normal), e aqui eu sou a pessoa mais gorda que eu conheço. Todo mundo faz esportes. To-do mun-do.
  2. Tem que tomar Vitamina D: Comecei a tomar Vitamina D só depois de meses aqui, e me arrependi de não ter começado antes. Eu tomo de 2000 a 3000 UI por dia. Mas tem que olhar por pessoa, porque depende de um monte de coisas. Mas tome! Pelo menos 1000 por dia.
  3. As pessoas comem razoavelmente bem. Apesar da proximidade dos EUA e da comida ser parecida, a bebida é bem diferente (ver a seguir), e o tamanho das porções é pequeno. A comida é relativamente cara, comparando com os EUA. As opções são praticamente a dieta americana: hambúrguer, pizza, cerveja, fish fingers e poutine (o único prato típico, que é uma gororoba de batatas fritas com molho de carne “gravy” e cheddar por cima). De café e jantar é sanduíche, muffin e cookies. Muita gente faz a própria comida e leva para o trabalho.
  4. Como se anda nessa terra! 15 minutos ate o metro em terreno instável e escorregadio é considerado nada. Para classificar como “andar”, tem que ser pelo menos uma hora. Uma trilha leve tem 1:30h. As trilhas sérias sao de 4 horas de subida. 
  5. Aqui poucas pessoas tomam refrigerante, os restaurantes servem água de graça assim que você se senta (se ele perguntar, peça "tap water" ou "regular water"). 
  6. Todo mundo bebe a água da torneira de boas. Suco ou refrigerante só em ocasiões especiais.
  7. Tem poucas opções de almoço e lanche do tipo brasileiro. Aqui é quase sempre sanduíche. Eles levam muito a sério incluir salada.
  8. O sistema de saúde é público, mas pelos primeiros três meses aqui ele não estará disponível para você. Para isto você tem que fazer a carteirinha de saúde no Service Ontario mais próximo.

Parte VI - Diversão e Ritmo de Vida

  1. Community Center: São espaços maravilhosos! Tem aulas de tudo (dança, pilates, crochê, digitação...), parque, parquinho, quadras, piscina aquecida no inverno, piscina ao ar livre no verão, pista de patinação no gelo. É tudo de graça. Só chegar e usar.
  2. Parques: Toronto é considerada a cidade dentro de um parque. E é isso mesmo. Tem parques incríveis, com trilhas, espaço para picnic, banheiro. Só não tem comida e bebida para vender na maioria dos parques, tem que levar (lembra deles serem fit?).
  3. O ritmo aqui é outro. As pessoas são tranquilas, pacatas e calmas. Nosso jeito "agitado" brasileiro soa como "emergência" para eles e eles ficam assustados. As pessoas esperam respostas em dias, não horas. Esperam mudanças em semanas, não dias. Planejam para anos, não semanas. A gente custa a sair do modelo "fast and furious". 

Bom, por enquanto foi isso que eu lembrei. Se você tem outras experiências e perguntas, coloque nos comentários e vamos conversando! :)

6 de agosto de 2020

Aprendizagem Criativa: Como não enlouquecer com o Home Schooling

O Covid trouxe muitos desafios para as famílias: ficar longe dos amigos e familiares, algumas vezes a perda de emprego, a mudança na rotina.

Um dos grandes impactos foi o fato de que as crianças agora ficam o dia inteiro e estudam em casa. Ouvindo diversas amigas minhas e vídeos e memes online, ficou claro que quase ninguém está preparado para ensinar o filho em casa. 

Então eu decidi ajudar, como posso. Minha experiência de 18 anos no ensino em geral, e em Aprendizagem Criativa para crianças nos últimos 5 anos fez com que a experiência de home schooling aqui em casa seja muito mais tranquila. Não é perfeita, mas não é enlouquecedora.



A base da Aprendizagem Criativa pode ser resumida em uma frase: "Quando você ensina alguém alguma coisa, você tira desta pessoa a oportunidade de aprender." Para a maioria dos professores, esta frase é dolorosa. Todo o nosso valor é baseado na nossa capacidade de ensinar, certo? Mas ensinar pressupõe que você é o dono do conhecimento, e você vai passar ele para outra pessoa. De cima para baixo. Com autoridade. E você está certo e a outra pessoa vai saber o que você sabe.


Você provavelmente está baseando a ideia de home schooling neste modelo baseado nos professores que você teve: perguntas fechadas, respostas únicas, xinga quando erra, dá parabéns quando acerta.  A triste verdade é que este método não funciona muito bem. A grande maioria dos adultos vai te dizer que não sabe mais Geografia, Matemática e Ciências, apesar de ter passado de ano direitinho. Isso é porque tem muito tempo? Não. Tem algumas matérias que os adultos lembram, com perfeição e alegria. São as coisas que eles já tinham interesse, aprenderam pesquisando, experimentando, conectando com suas experiências reais anteriores. Essa é a proposta do Aprendizado Criativo. O professor/educador não está lá para dar as respostas. Ele está lá para ajudar o aluno a encontrar a resposta sozinho.

"Tá, mas eu não sou educador. Eu não tenho este treinamento." Que bom. Significa que você vai ter menos problemas em não ter todas as respostas. Quando eu treino professores em Aprendizagem Criativa, a parte mais difícil é fazer eles pararem de responder às perguntas dos alunos.

Então, jogue esse modelo antigo fora e apoie o home schooling d@ seu filh@ da forma que você ensina uma criança a andar de bicicleta: Deixa a criança sentar no selim, pegar o guidon, dá um empurrão, e corre atrás. Ninguém senta a criança no colo na bicicleta, pedala e dirige, enquanto fala: "Tá vendo, é assim que faz." Se ela for pequena, você pode oferecer rodinhas (digitar para ela, ajudar nas pesquisas), mas passou dos 8 anos / aprendeu a ler, ela dá conta sozinha. 

Algumas sugestões específicas:

** Presença física dos pais durante as aulas **
Não fique com eles durante as aulas, para-casa, etc. Da mesma forma que você não fica em sala de aula com eles, você não devia ter que participar de todas as atividades para que elas funcionem.

A escola é responsabilidade deles. Crie um ambiente sossegado, longe de distrações. Se não está funcionando, avise @ professor@. É responsabilidade del@ fazer com que as aulas sejam interativas, divertidas e que as crianças fiquem engajadas. Se sua criança tem menos de 8 anos, isso vai ser MUITO difícil por mais de meia hora, mas, de novo, esse é o trabalho d@ professor@, não seu.

O objetivo disto é evitar que a maior carga de trabalho caia, de novo, sobre as mulheres. Principalmente as que tem um emprego que também demanda seu tempo. Se você tiver que virar assistente de classe d@ seu/sua filh@, você não vai ter tempo para outras coisas. Mesmo que não trabalhe fora, fazer compras, cozinhar, arrumar a casa, provavelmente está tudo sob sua responsabilidade, então não assuma mais esta.

** Ajuda em para-casa **
Não faça o para-casa del@s. Isto inclui não ficar sentado do lado del@s enquanto fazem o para-casa. Avise que você está disponível para perguntas específicas, mas que a responsabilidade é del@s. Peça que façam tudo que dão conta e pulem as que não conseguem. No final, você ajuda com as que não foram feitas. 

Também marque um tempo fixo para o para-casa, 1h, por exemplo. Se não sabe quanto tempo, pergunte para @ professor@ quanto tempo é adequado. Neste tempo, a criança não pode "terminar antes", ter acesso à TV, videogame, etc. Se terminar ou não tiver para-casa, indique para ela um livro adequado para a idade. Ao final, se a criança não conseguiu terminar, mande incompleto para @ professor@. Não é responsabilidade sua fazer a criança terminar o para-casa. É fundamental que @ professor@ saiba se sua criança está tendo dificuldades.

Quando for ajudar no final, não dê respostas, faça perguntas. Muitas. Se a criança vier com uma dúvida, responda com uma pergunta. Isso é a metodologia mais importante da Aprendizagem Criativa. Exemplo:
    Criança: "Quem descobriu o Brasil?" 
    Você: "Quem você acha que descobriu o Brasil?"
    Criança: "Não sei... Cristóvão Colombo?"
    Você: "Está perto. Cristóvão Colombo foi um grande navegador também. Mas o Brasil não foi ele... Você conhece outro navegador?"
    Criança: "Não. Então não sei."
    Você: "Como a gente descobre alguma coisa que a gente não sabe?"
    Criança: "A gente olha no Google?"
    Você: "Sim, isto é uma forma legal. O que você gostaria de procurar no Google?" (se eles não souberem usar o Google, você pode digitar para eles, mas eles devem fazer a pergunta)
    Criança: "Digita aí: quem descobriu o Brasil?"
    Você: "OK. Agora onde você quer clicar?"
    Criança: "Aqui. Lê para mim?"
    Você: "Vamos ler juntos? Você começa e se tiver dificuldade em alguma palavra você me pergunta."
    Criança: "..."

Vai levar muito mais tempo do que responder: "Pedro Álvares Cabral"? Vai. Mas você está ensinando muito mais do que descobrimento do Brasil. Você está ensinando autonomia, raciocínio lógico, que não temos todas as respostas mas que sabemos onde encontrá-las, análise crítica de fontes de internet, e qual o caminho para resolver a próxima dúvida. Com o tempo, a criança conseguirá ficar cada vez mais autônoma, e você pode "tirar as rodinhas".

Irvine Police Department Offers Traffic and Bicycle Safety Class for Kids!  – Melissa Fox for California

Espero que estas dicas tenham ajudado. Contem para mim suas experiências, dúvidas e estratégias que deram certo nos comentários, e usaremos a Aprendizagem Criativa para encontrar as respostas, juntos.

P.S.: Para uma discussão mais detalhada sobre o papel do dever de casa (para-casa), eu escrevi este outro post no blog da Just CODING, onde discuto o papel do cuidador e como criar deveres estimulantes e relevantes para as crianças.

4 de agosto de 2020

Se eu tivesse tempo... perdia o medo da morte.

Hoje tive uma das melhores aventuras da minha vida. 

Era para ser simples: 49 minutos de bike daqui até a praia, por uma ciclovia asfaltada.

Melzinho na chupeta.

Retão, descida, tudo para dar certo. Certo?
Só que aí eu resolvi fazer gracinha. Começou a chover, e eu decidi "cortar caminho" por uma avenida:
Improvisando...

O que o Google Maps não sabe é que parte deste trajeto é uma trilha. No-meio-da-floresta. Na lama. Depois de chover. Muito.

Era para eu estar aqui...


... mas eu estou aqui.

Partes do trajeto eu fiz empurrando a bike. Já morrendo de medo de escorregar.
Finalmente, cheguei em um lugar para atravessar o rio, segundo o Google Maps. Mas ele não sabia que tinha chovido, né? Olha o que aconteceu com minha trilha:

Rio lamacento. Bóra?


Então dei outra volta pelo meio do nada, e finalmente cheguei na trilha certa. Aí foi maravilhoso: vento no cabelo, 16km/h de média, uma lindeza. O caminho segue o rio Don Valley, e é praticamente plano. Eu até vi umas estátuas estranhas muito legais no caminho.



Parece o Kamaji das Viagens de Chihiro

Foi cansativo mas foi muito legal! Depois de mais de uma hora, cheguei na Cherry Beach.




Comi uma barra de cereal, coloquei a bicicleta na marcha mais pesada, e me preparei para voltar. Mal sabia eu que a aventura havia apenas começado.

Na ida, eu tinha passado por umas 10 poças como essas: 



Eu tinha ido com cuidado, descido da bike, e uma das vezes até passei bem perto da beirada do rio. Coloquei a bicicleta no lado de fora e fui pro meio do mato lamacento. Pensei: "se for cair, cai a bicicleta..." Aí me dei conta que meu celular tava preso no guidon. Já estava pensando em como ia ligar para o Juliano com um celular emprestado já que eu não sei o número dele de cor, quando voltei para a trilha seca. Isso foi a ida.

Na volta, um senhor passa por mim, no gás total, e passa direto por cima das poças. Eu pensei: gente, eu que estou sendo muito tola. Tô de bike! Não tenho que ficar desviando de poça! E toca marcha 3x6 (a mais pesada), e chuuaaaaá! Minhas *costas* encharcam de lama. Eu não tinha imaginado que o pneu de *trás* ia jogar tudo nas minhas costas. A bike também encheu de lama, mas nessa altura eu já to me sentindo a Jane na selva, pernas cobertas de lama, tudo é festa.

Ando mais 40 minutos. O Google desgracento falando que falta 28 minutos há mais de 25 minutos. Começo a ficar realmente cansada. Já tem 2h que eu tô pedalando, e a lama seca na corrente da bicicleta começa a fazer estalos, barulhos, e pedalar vai ficando cada vez mais difícil. Não tenho mais água porque o pouco que tinha sobrado na garrafinha a lama cobriu.

Decido pegar a avenida Milwood e ir direto para casa, sem passar pelo parque. No mapa, dá para pegar a avenida bonito. Ao vivo é beeem diferente.

Mapa fofinho da mamãe.

Realidade cruel.

Ou seja, sem chance, a não ser que eu ponha o E.T. na minha cestinha. Então bora continuar pedalando. Já tou arfando, sem água, a perna começa a arder, sei que se não voltar para uma avenida onde possa pegar um ônibus para casa, vou ter que deitar no chão a qualquer momento.

Então eu chego na Eglinton. Quer dizer, quase chego. Tipo a Milwood, eu tô aqui embaixo, e a Eglinton tá lá em cima:



Mas o que nos separa não é o céu. É cascalho solto. Essa foto não dá a correta imagem do tamanho dessa coisa. E adivinhem o que eu decido fazer? Subir o morro, com a bicicleta.

Pausa para explicação do título e da razão (meio insana, confesso), para esta decisão. Ontem de madrugada terminei de ler o livro "The Subtle Art of Not Giving a F***", e aprendi demais com ele. Aprendi que a gente tem que escolher as dores que quer, não as alegrias. Tudo que presta nessa vida requer sacrifício. E são estes sacrifícios que fazem as coisas valerem a pena. Eu já tinha conquistado a floresta, o rio e a praia. Agora eu ia conquistar o morro. Respirei fundo, e comecei a arrastar a bicicleta morro acima.

Faltando uns dois metros, a inclinação fica bizarra. A bicicleta cai de lado, e eu quase vou junto. Caio de joelhos no chão, uma mão ralando toda nos pedregulhos, a outra agarrando o banco da bicicleta para ela não descer morro abaixo. Eu to hiperventilando, meio tonta, olho para baixo, e sei que, se tentar descer, chego lá embaixo rolando. Tenho que chegar no alto. Tiro força não sei de onde, e vou de gatinho até o alto do morro, alternando "Idiota, estúpida, ideia sem noção" com "URRRGGG".

Chego no topo. Gasto uns 10 minutos recuperando o fôlego, coração bate no pescoço, dor de cabeça, boca seca. Quando eu finalmente pego a avenida, lotada de carros e caminhões a mil, a corrente da bike solta no meio da descida. Paro no acostamento, conserto a corrente com a mão e "limpo" a graxa no tênis lamacento. Eu sou o Rambo.

Mais 10 minutos e chego no ponto de ônibus. Sim, ia levar mais 25 minutos para eu chegar em casa, e eu não tou nem andando mais. Ainda ponho a bike no rack na frente do ônibus, sento e espero os 5 minutos do ônibus, quase em êxtase. Consegui.

Sentada no ônibus com minha bike (azul) na frente.

Quando eu chego em casa, me sinto uma heroína. Eu podia olhar para trás e pensar que esta foi a pior volta de bicicleta da minha vida. Mas foi o contrário. Eu decidi meu caminho, minhas dores e meus desafios, e resolvi todos eles. Isso é a verdadeira felicidade.




30 de dezembro de 2016

Por quê somos tão poucas?

Minha amiga Daniela Lacerda me mandou um artigo interessante sobre a queda no número de mulheres formando em Ciência da Computação que aconteceu depois da década de 80: Quando as mulheres pararam de programar? (em inglês)

O artigo começa com o gráfico abaixo, que mostra (em vermelho) que o número de mulheres na Ciência da Computação cresce a partir da década de 60, mas começa a cair na década de 80 e atualmente se encontra no menor percentual desde 1975:


O texto é interessante, mas ele me parece meio inocente, talvez equivocado. O texto propõe que uma razão possível (e sugere que deve ser uma razão importante) das mulheres terem saído do mercado de programação seja cultural, mais especificamente, que meninas não ganharam computadores para brincar quando eram crianças, meninos ganharam. 

Eu concordo que esta pode ser uma razão com efeito pequeno (ver mais abaixo), mas acho que a questão principal é dinheiro, mais precisamente, quanto de dinheiro a profissão paga.

Até a década de 80, programar era um trabalho que mulheres que tinham graduado em Matemática assumiam, pois haviam muitas mulheres que faziam matemática para… dar aulas! (Ver a história completa em inglês em: http://www.npr.org/sections/alltechconsidered/2014/10/06/345799830/the-forgotten-female-programmers-who-created-modern-tech). Haviam muitas mulheres nesta área, porque, como hoje, esta é uma profissão de baixa remuneração.

Mas na década de 80 a profissão de programador foi se tornando cada vez mais presente, mais complexa, e começou a pagar cada vez mais. Toda profissão que paga bem tende a expulsar as mulheres do mercado, como mostram os gráficos (atuais) abaixo sobre a participação feminina nas profissões mais bem pagas e menos bem pagas nos EUA (fonte: https://www.dol.gov/wb/stats/highest_lowest_paying-occupations_2014.htm).
As 25 profissões com maior remuneração nos EUA (2014) e sua remuneração. Homens são representados em verde, mulheres em roxo e ambos os sexos em cinza. Note que as mulheres não são nem representadas em 14 das 25 profissões, e que, quando aparecem, seu salário é sempre mais baixo (70% a 87% do equivalente masculino).
Separação das 25 profissões com melhor remuneração separadas por gênero (mulheres roxo e homens verde). Note que as mulheres são minoria em todas as profissões, exceto Pharmacists.
Separação das 25 profissões com pior remuneração por gênero (mulheres em roxo e homens em verde). Note que as mulheres são maioria em quase todas, exceto trabalhadores rurais, cozinheiros, zeladores, açougueiros, e carregadores).

Fica claro que as mulheres não só ganham menos do que os homens (primeiros gráfico), mas elas são muito mais representativas em profissões que pagam menos (dois gráficos seguintes).

Os motivos desta separação por renda são muitos, sendo os principais:
  1. Maior dedicação ao trabalho masculina - por não ter que se dedicar à família e à casa da mesma forma que a mulher.
  2. Maior mobilidade geográfica masculina - a mulher muda de cidade para acompanhar o marido, o marido raramente muda para acompanhar a mulher.
  3. Preconceito - como no filme “Sushi à la mexicana”, que mostra que existiam “razões” intrínsecas para mulheres não serem sushi chefs, como “mãos de mulheres são muito quentes” e “o perfume feminino atrapalha o gosto da comida”. Esta é uma forma excelente de excluir 51% dos seus competidores sem eles nem terem a chance de tentar. Da mesma forma, a “inocente” ideia de que mulheres são mais emocionais (em oposição aos homens mais “racionais) tornaria as mulheres naturalmente incompetentes em áreas como Programação e Matemática.
  4. Necessidade feminina de horários flexíveis (por causa do cuidado com crianças e idosos), afastando-as de cargos de maior responsabilidade, dedicação e remuneração.
  5. Menor investimento inicial na educação e preparação de meninas - esta é a razão dada no artigo original, mas é muito mais complexo do que só “dar computador de presente na infância”. Tem também: a) falta de incentivo à carreira, à ir a escola e à aprender matemática; b) maior valorização do casamento do que do diploma da mulher; c) cobrança para “não ser mais esperta que o namorado”, “não ficar para titia”; d) punição social se a mulher se dedicar mais ao sucesso pessoal do que às relações sociais.
  6. Assédio e intimidação em profissões que são majoritariamente masculinas apoiadas pela cultura do estupro - eu e diversas colegas podem conter as vezes em que foram assediadaspor professores na faculdade, intimidada e caluniada em empregos, e desencorajadas por parentes, colegas e professores.
Por isto tudo, acredito que, sim, devemos incentivar meninas e meninos a usarem computadores de forma produtiva o mais cedo que eles puderem (e gostarem), e é isto que fazemos na Just CODING. Inclusive incentivamos a participação de meninas em nossas propagandas, comunicações e damos desconto de 10% para meninas e mulheres em nossos cursos.

Mas não tenho a ilusão de que apenas esta mudança cultural será suficiente para acabar com esta diferença tão gritante. Precisamos lutar para que mulheres estejam em TODAS as profissões bem remuneradas, para que o "glass ceiling"* desapareça em todas as profissões. 

Só assim cada menina poderá tentar ser o que quiser (porque conseguir depende de milhões de outras variáveis, como sorte, cor da pele, país que nasceu e momento político-econômico).  Não é muito animador, mas é preciso conhecer a realidade que queremos mudar para começar a mudá-la.

Prepare for the worst, and hope for the best. 
(Prepare-se para o pior, e espere o melhor)


* glass ceiling: termo para a barreira invisível que impede as mulheres de alcançarem os postos mais altos de comando, ou as profissões mais bem remuneradas.



30 de maio de 2016

Eu

Eu sou Ana de Oliveira Rodrigues.
Sou engenheira eletricista.
Sou mãe de duas meninas (Alice 9, e Rosa 4), esposa do Juliano, filha, irmã, tia e cunhada, em graus de sucesso variados.
Sou sócia fundadora da Just Coding, uma escola de programação para crianças, junto com uma grande amiga que não tem nada a ver comigo e isso é a melhor coisa do processo.
Sou escritora amadora e pouco frequente neste meu blog, que só me vê quando meu marido viaja, eu estou deprimida, eu fico revoltada ou tenho uma ideia (que eu acho) extremamente legal.
Amo ler. Muito míope desde os 8 anos e sem óculos até os 12, livro era aquela coisa que eu entendia e via, em contraste com bolas de queimada, buracos na rua e folhas das árvores. Acho que livros são a melhor forma de imortalidade.
Adoro fazer amizades e falar à beça. Não curto muito música ambiente, pois atrapalha falar e ouvir. Escuto meio mal de um ouvido, então prefiro falar do que ouvir (bela desculpa, não?). Mas gosto de sentar e ouvir música, principalmente ao vivo.
Adoro gente inteligente, gente engraçada, gente profunda, gente que duvida, gente que pergunta, gente que discute e gente que me ensina. Tenho muita dificuldade de gostar de gente que não pensa, gente que acha que tem algumas gentes melhores que outras gentes, gente que repete o que leu na Veja como verdade universal. Mas tem excessões, se a pessoa for autêntica (tipo a Hebe, que eu amava, embora discordasse de TUDO que ela falava).
Meu famoso favorito é o Jean Wyllys.
Meu livro favorito é "Todos os Homens são Mortais" da Simone de Beauvoir. O segundo é "Midnight Children" do Salman Hushdie. O terceiro é o que eu estou lendo no momento, sempre. Cada livro me torna uma nova pessoa, porque, meio Zelig, eu passo sempre umas três semanas mudando tudo na minha vida baseado no que aprendi com cada livro. É o maior barato!
No momento estou em paz e feliz com meu corpo, minha casa, minha família e meu trabalho, e aproveitando bem, porque, se eu me conheço, não vai durar muito.
Amo ser convidada para arrumar armários e quartinhos e recentemente adicionei um paiol à lista dos lugares que transformei de zona total em inacreditavelmente arrumado. Faço isso por amizade e/ou por comida. Almoço ou janta, porque não gosto de acordar cedo.
Essa sou eu. Agora. Veremos ao final do próximo livro.

5 de abril de 2016

A casa com teto de vidro

Minha memória é péssima. Não no sentido de que eu esqueço coisas, e sim no sentido pior, em que eu esqueço a minha vida.

Escuto pessoas, como meu marido, falando que lembram da professora do jardim de infância, do primeiro dia de faculdade, de viagens, e morro de inveja. Sou viciada em fotografar e contar e recontar minhas histórias e em escrevê-las, porque este é o meu jeito de tentar não esquecer o que vivi. Sei que todas as minhas "histórias" e "memórias" hoje são baseadas em momentos que recontei tantas vezes que hoje me parecem reais. Quantos deles são, não sei mais.

Por isto, hoje, escrevo este post. Não quero esquecer este dia. Foi o dia que construí uma casa com teto de vidro no Minecraft com a Alice, que tem 9 anos. Ficamos três horas em frente ao computador, e, no final, no jantar, ela sorriu um sorriso acanhado e disse: "Hoje foi muito divertido." E eu respondi, honestamente: "Foi mesmo."

Por que isto é importante? Porque tem sido cada vez mais difícil eu e Alice nos divertirmos juntas. Ela sempre foi mais "física", e eu nunca brinquei muito destas coisas com ela. Juliano é o grande parceiro de brincadeiras dela. Ela sempre me chama para "brincar", mas eu nunca posso, ou não quero, ou acho a brincadeira meio perigosa ou entediante (às vezes perigosa E entediante, pode?). Estou quase sempre no celular, no carro, no trabalho, no computador.

Há dois dias, comprei o Minecraft por causa do trabalho (sim, tenho o melhor trabalho do mundo, dando aula de programação para crianças na Just CODING). Falei com ela, e disse, "Achei que você ia gostar de jogar comigo." Ela me jogou o balde d'água (vingança!!!): "Não tenho paciência para Minecraft".

Eu fiquei chateada. Achei que finalmente tinha achado um jogo que seria legal o suficiente para nós duas. Quando chegamos em casa, eu resolvi mostrar para ela o que já tinha aprendido. No começo, ela fez pouco caso: "Daqui a pouco buga tudo e você morre. Esse jogo é chato."

Aí, dali a pouco, bugou tudo, eu morri. Mas não desisti. Ela sentou do meu lado, e me deu o primeiro palpite: "Mata a galinha." E o segundo, e o terceiro. Quando a noite chegou e os zumbis correram atrás da gente, perdemos nossa casa, nossa vida, nossos suados pedaços de madeira. Mas aí eu apertei o botão de recomeçar, e fizemos tudo de novo.

Largamos a Rosa (4 anos) por três horas vendo Pepa Pig na TV (resolveremos um trauma de infância de cada filha por vez, ok?). Ela ficou com medo de sair da casa por causa dos zumbis, mas estávamos ficando com fome. Então, ela teve uma ideia brilhante e construímos um pomar dentro de casa! Quando chove, quebramos o teto para molhar as plantas. De dia quebramos o teto para que elas tomem sol. Eu jamais pensaria nisto.

Nossa horta indoors

Por pedido dela, saímos deste modo onde podemos morrer para o modo onde tudo está liberado, e construímos a casa com telhado de vidro. A primeira ideia dela foi colocar a água dentro de casa. E ficou lindo.

A água dentro da casa
Depois fizemos as paredes, sendo que uma delas brilha no escuro. Colocamos e tiramos tochas vermelhas. E, por fim, nosso teto de vidro. Enorme. Lindo. De dentro da casa vemos as estrelas.

Nossa casa com telhado de vidro
No final das três horas, conversei com ela sobre  como nossa casa de vidro era maravilhosa, e o quanto eu tinha ficado empolgada quando finalmente fizemos pão, com o trigo que colhemos da nossa horta dentro de casa. Que o pão tinha sido especial, pois ele tinha sido difícil de conseguir. No modo liberado temos pão o tempo todo, e quão pouco valor ele tem.

Tenho minhas filhas comigo o tempo todo. Elas são como a casa de telhado de vidro. Maravilhosas, todas as possibilidades diante delas. As semanas, meses, anos passam, e eu fico contente de estar com elas vendo a casa crescer e ganhar novidades. Mas hoje fiquei MUITO feliz de ter tido um dia fazendo pão.

Foi realmente muito divertido, filha.

24 de março de 2016

#Somos51PorCento

Este post é sobre o fato de que nós, mulheres, somos 51% da população mundial. Deveríamos ser 51% de todas as populações: dos engenheiros, dos policiais, dos políticos e das donas de casa. Tenho três sugestões para chegar nesta proporção.

1) Precisamos nos encontrar mais

No sábado, 12 de Março de 2016, participei do excelente Women Techmakers 2016 (#wtm16). É um encontro que existe desde 2012 em comemoração do dia da Mulher, onde mulheres da área de tecnologia discutem, aprendem, interagem. Este ano aconteceram encontros em 50 países, em um total de130 eventos, com a participação de mais de 12.000 mulheres envolvidas com tecnologia.

Precisamos de encontros como estes para que possamos conhecer outras mulheres engajadas, outras mulheres que aprenderam e podem nos ensinar, outras mulheres.

Para isto, é necessário que estes encontros sejam:
i) no final de semana, pois muitas de nós trabalham durante a semana.
ii) em lugares que tenham infra-estrutura para crianças, pois muitas de nós são mães e não tem com quem quem deixar os filhos.
iii) avisados com bastante antecedência, e que a pauta seja avisada por e-mail antes, para que possamos priorizar nossos escassos recursos de tempo.

Somos 51% da população, deveríamos ser 51% do público em reuniões. E deveríamos ser 51% das pessoas convidadas para falar. Se você não consegue participar de encontros, coloque o que seria necessário para participar nos comentários e eu incluo na lista acima.

2) Precisamos nos organizar mais

Neste momento político do Brasil, a filiação à partidos parece quase um palavrão. Mas a política não é feita apenas por partidos. Grupos organizados na internet, ONGs, grupos de amigos, e até empresas podem ser organizações políticas.

Conhecer e votar em mulheres que defendam plataformas feministas é o primeiro passo, mas pensar em se eleger no futuro, fazer campanha, é parte fundamental da cidadania.

Somos 51% da população, deveríamos ter 51% dos cargos eletivos, dos cargos de confiança, da autoria das leis, das presidências e conselhos. Se você já faz parte de uma organização, pressione para que regras para garantir ou incentivar este percentual sejam implementadas.

3) Precisamos nos comunicar mais

A desigualdade existe e persiste em muitos lugares que nem sabemos que ela está. Empresas, por exemplo, só mudarão suas políticas quando sua imagem pública for prejudicada pelas políticas vigentes.

Por isto, criei no Facebook o perfil Somos51PorCento onde você pode deixar depoimentos sobre instituições de ensino, empresas, serviços públicos, soluções coletivas ou individuais ou qualquer outra situação onde percebeu que políticas para incluir ou excluir mulheres são postas em prática.

A ideia é  fazer uma lista anual dos 10 melhores e piores lugares para se trabalhar, estudar, ir ao restaurante, morar, etc., baseada no que for colocado como depoimento. Se soubermos, e contarmos, podemos apoiar ou boicotar iniciativas, e, com isto, forçar mudanças.

Somos 51% da população, deveríamos ser 51% dos gerentes e das caixas de supermercado, dos engenheiros e das enfermeiras, dos professores infantis, dos artistas, das babás e dos garçons. Participe, mande suas sugestões, depoimentos, ideias para criarmos esta mudança.

#Somos51PorCento

A Última Guerra

 O último mês viu o nascimento do ChatGPT . Pela primeira vez, um programa de computador é capaz de responder à perguntas como um ser humano...