8 de julho de 2013

A escala Barbie-Marlboro

Eu tenho uma teoria maluca (na verdade, tenho várias, mas esta é uma das minhas preferidas).

Eu inventei uma escala, que batizei de escala Barbie-Marlboro para medir o quanto uma pessoa se enquadra  dentro dos padrões de feminilidade e masculinidade da nossa sociedade. Em uma ponta, temos a Barbie, na outra  o Homem de Marlboro.

Enquanto eu faço as unhas
toda semana...

... eu roo a unha do pé.






É divertido ficar pensando onde cada pessoa se enquadra nesta escala, mas é mais divertido ver como casais se encaixam. 

O Homem de Marlboro tende a se casar com a Barbie. Por outro lado, pessoas menos extremas na escala (como eu, que faço as unhas, mas sou engenheira eletricista) tendem a se casar com pessoas mais perto do centro da escala também (como meu marido, que gosta de uísque, mas troca fralda numa boa). Observação importante, eu acho um barato quando as pessoas saem destes padrões! Eu e meu marido estamos no centro justamente porque fazemos várias coisas que a sociedade considera "papel do outro".

Então, para sua diversão, segue a escala de pontos. Cada ponto F (femininos) cancela um ponto M (masculinos), te levando para o centro da escala. Se no final tiver 10 pontos F, você é uma Barbie Perfeita, 10 pontos M, você já pode cuspir no chão e fazer propaganda do Marlboro.

Se você...
  • ... tem mais de 10 pares de sapatos, some um F
  • ... não sabe a diferença entre celulite e estria, some um M
  • ... faz o "pézinho" na nuca, some um F (se não sabe o que é "pézinho na nuca", some 2 M)
  • ... tem uma parafusadeira elétrica, some um M
  • ... tem uma lixadeira elétrica ou uma serra elétrica (e sabe usar), some dois M
  • ... usa rímel, some um F para cada centímetro de rímel
  • ... leu Cinquenta Tons de Cinza, some um F para cada livro que você leu
  • ... acha que só existem quatro cores: Vermelho, Preto, Verde e Azul, some um M
  • ... sabe a diferença entre Pink, Rosa, Salmão e Bonina, some um F
  • ... vai no salão, some um F para cada vez por semana
  • ... toma cerveja, some um M para cada vez por semana
  • ... troca fraldas, some um F por cada filho (a)
  • ... troca lâmpadas e chuveiros, some um M
  • ... nunca viu novela na vida, some 2 M
  • ... faz testes de personalidade como este, some um F
Minha pontuação final foi de 1F, do meu marido 1M (quase zeramos no meio da escala). 

E você e seu parceiro, quantos marcaram? Mandem sugestões para completar a lista nos comentários!

*** ATUALIZAÇÃO ****

Sugestões de leitores:
  • ... tem nojo de piscina de bolinha de parque infantil, some 1 F

7 de julho de 2013

O corpo é da mulher...

Hoje o post é rapidinho. Só para expressar minha indignação com isto:

Meio cedo para impor papéis para a pobre ciancinha, não???
Sim, aparentemente agora existe algo como "fralda para meninas" (que são princesas, claro, e só podem se vestir de rosa, claro) e "fralda para meninos". Era a marca que eu comprava para minha filha, acabo de mudar para a Pampers em protesto.
Se você acha isto um exagero meu, sugiro:
- Ler o blog Feminismo pra que, no Carta Capital, que discute como as questões de gênero estão moldando o machismo e a violencia contra a mulher, de onde veio a foto abaixo, que mostra a Barbie, e como ela seria se tivesse proporções "reais":
Barbie "normal" e Barbie "normal mesmo"
- Ver Slim Hopes , um documentário brilhante sobre como a mídia impõe uma imagem perfeita (princesas) sobre o corpo feminino, alimentando a baixa autoestima e fazendo das mulheres as maiores compradoras em busca da beleza ideal e inalcançável;
- Seguir e apoiar o Miss Representation , uma organização não-governamental voltada para melhorar a auto estima de garotas do mundo inteiro, cujo lema é "Você só pode ser o que você pode ver", oferecendo alternativas para as garotas.

Rosa e seu capacete de Engenheira...
...e seu carrinho de mão.
No final das contas, boicotei a fralda sexista, porque minhas filhas são minhas princesas, mas também são minhas matemáticas, doutoras, pintoras e engenheiras.

**** Atualização *****
Várias pessoas no Facebook fizeram dois tipos de comentários, que eu gostaria de esclarecer aqui, por ter mais espaço:
1) Adoro e uso estas fraldas, elas são ótimas.
Sem problemas! Aliás, também adoro a qualidade das fraldas. Usei elas com minha filha mais velha (hoje com 7 anos) e usei até agora com a Rosa, que tem 1 ano e 4 meses. Em momento nenhum estou dizendo que a fralda é de má qualidade, ou que você que me lê não deveria usá-las. EU estou boicotando, porque acredito que, como consumidora, minha única força para combater o sexismo na indústria é não comprando produtos que eu acredito que são sexistas. Se você não se incomodou, não tem porque não comprar.

2) Não precisa levar isto tão a sério, é só uma fralda rosa.
Não é só uma fralda rosa. Não tenho nada contra rosa (aliás, minha filha se chama Rosa). Mas me incomoda o fato de que é só rosa.
Quando minha filha mais velha pediu um carrinho de controle remoto de Natal, o único cor-de-rosa era da Xuxa, e só tinha controle para frente e para trás!! Não virava de lado. Ofereci a ela qualquer um dos 40 outros, que, pelo mesmo preço, tinham luzes, andavavam para frente, para tras e para os lados, e faziam sons. Ela me disse que não queria, pois não era de menina, porque não era rosa. Combinei com ela de comprar um vermelho e colar adesivos neles. Mas, ao pintar todas as coisas de rosa, estamos mandando a mensagem para as meninas de que o que não é rosa, não é para elas.
Uma cor só é muito pouco... e para bebezinhos, é muito cedo.

Abraços, e continuemos com a discussão!

12 de junho de 2013

Dia da árvore, do índio, da mulher, e outras barbaridades escolares


Inteligência, liderança, competência, não, né?
Acompanhando o (excelente) blog da Clara Averbuck sobre o dia da mulher, me peguei pensando na barbaridade que é o jeito que as escolas celebram estas datas comemorativas. (Outro post maravilhoso sobre o dia da mulher é o do Sakamoto.)

Especificamente no caso do dia da mulher, recebi de presente dos meus empregadores em uma faculdade aqui de BH um curso de auto-maquiagem da Mary Kay. Eu (e algumas outras professoras) ficamos entre sem jeito e meio fulas, uma vez que a mensagem do presente era:
- mulher TEM que ficar bonita
- não interessa se você é professora com doutorado, você QUER é ficar bonita
- você não vale nada para nós (o curso da Mary Kay é gratuito para todo mundo que quiser, é só ligar e marcar)

Sinceramente, podiam ter me dado um vale de R$5,00 em compra na Livraria Leitura que eu ficava feliz... Valorizava quem eu sou (professora, intelectual, etc), era simpático porque me deixava escolher, e, bom, não me ofendia.

As comemorações do dia das mulheres costuma ser das mais equivocadas em geral. Afinal, quantas pessoas sabem que este dia foi escolhido porque um grupo de mulheres grevistas morreram quando tacaram fogo nelas? Aonde que isso combina com ganhar rosas vermelhas?? Mas acho que o dia da Mulher ainda perde disparado para as comemorações do Dia do Indio em escolas de 1o e 2o grau.

Que fofinha, ne?
Será que ela foi expulsa das terras dela?
 Fuçando na internet, descobri que o Dia do Índio, 19 de abril, é celebrado nas escolas em respeito à lei federal nº 11.645, que torna obrigatório o ensino da cultura negra e indígena nas escolas públicas. Criada em 20 de dezembro de 1996 pelo Lula e pelo Haddad, diz que:

“Art. 26-A.  Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

§ 1o  O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.

§ 2o  Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.”

De onde o pessoal entendeu que isto era a mesma coisa que pintar a cara com guache e fazer cocar de papel reciclado, eu não sei. Ah, peraí, já sei. No segundo parágrafo fica tudo explicado... "em especial nas áreas de educação artística e...". Isso mesmo, educação artística. Sobra para o professor de educação artística comemorar o dia do índio com as crianças. É verdade que tem a história dos índios e negros nos livros de História e Português, mas, no Dia do Índio, nunca vi ninguém chegar em casa contando uma lenda indígena, ou descobrindo que as ruas de Belo Horizonte (Guajajaras, Tupinambás, Tamóios, etc) são nomes de tribos. É só o cocar. E o guache. E, às vezes, um tambor e chocalho (oooo, humilhação!!!).

Devia ter uma lei para incentivar a consciência artística das crianças, mostrar arte de qualidade, ensinar técnicas variadas, mostrar as diversas correntes artísticas, do Renascentismo ao Modernismo, ao Cubismo e ao Abstrato. Mostrar o mundo enorme e vasto da arte, e da Literatura, e da História. Ficar ensinando nossas crianças a se pintarem de verde no dia da árvore, verde e amarelo no da pátria, de faixas coloridas no rosto no dia do Índio, de coelho na Páscoa é um desperdício... A lei devia pelo menos dar a idéia de mostrar pinturas rupestres, cestas e potes de cerâmica verdadeiros, (ainda que em foto ou filme).

Estas "comemorações" a toque de caixa, com pouca ou nenhuma verba, sem incentivo aos professores, só para governo ver, fazem um desserviço ao próprio tema. Banaliza. A repetição do cocar colorido, ou da rosa vermelha, tira a força da luta dos povos e mulheres que batalharam por seus direitos, e que deveriam ser lembrados neste dia. Me fale o nome de um único índio importante na história do Brasil. De uma feminista brasileira.

Até aprendermos a respeitar a luta do passado, era melhor mesmo a gente comemorar só o Dia da arvore, já que árvore não se ofende.

*****

PS.2: depois que publiquei o post, meu marido fez uma colocação muito boa: "No dia do índio as crianças pintam a cara, batem tambor, uma encenação infantilizadora. Queria ver a confusão que ia dar se alguém resolvesse pintar todas as crianças de negras no dia da Consciência Negra."
E eu imagino que esta diferença seja causada pela quase total ignorância que temos da verdadeira cultura indígena. A cultura negra está em todos nós. Mesmo que representada de maneira equivocada muitas vezes, os negros no Brasil são parte presente de todas as escolas, todas as famílias. Mas o índigena não. Não tem nem um indígena na escola para defender sua honra, sua dignidade, sua cultura.

23 de abril de 2013

Maternar X Trabalhar: Um pedido de Paz

Paz entre as mães...
Esta semana minha irmã me mostrou três posts que discutem a onda de colocar as fotos de filhos como sua foto no Facebook.

O primeiro critica esta atitude, dizendo, em resumo, que esta é a derrota do feminismo, já que as mulheres estariam se identificando apenas como mães, ignorando todas as conquistas do feminismo. Igualando estas mulheres a pessoas sem identidade, desprovidas de ambição.

Os outros dois, um meio piegas e o outro meio irritado, defendem a honra e direito de ser mãe, uma tarefa sublime e uma das maiores (se não a maior) conquista de uma mulher.

Eu fico triste com todos eles. Esta guerra entre Maternar x Trabalhar é um caso clássico de economia, como eu aprendi em um livro divertidíssimo sobre teorias econômicas aplicadas à criação de filhos ("Parentonomics" de Joshua Gans). A idéia básica é esta: toda vez que duas escolhas opostas apresentam muitas vantagens e desvantagens, com opções complexas e cheias de variação, fica muito difícil decidir qual é a melhor escolha. Neste cenário, ao tomar a decisão, você acaba tendo que radicalizar as vantagens da sua escolha, ou as desvantagens da outra, para justificar a sua decisão.

No caso específico do Maternar x Trabalhar, cada mãe (e cada pai) vai ter que equilibrar seus valores, suas condições financeiras, seus talentos e o que é melhor para ela e sua família, e duas famílias nunca serão iguais.

Ao decidir trabalhar fora, tenho mais dinheiro, uma carreira cheia de conquistas e desafios estimulantes, não dependo do meu companheiro economicamente. Eu decido que não tenho talento para criar filhos em tempo integral. A maioria das pessoas assume isto automaticamente de todo homem. Que ele vai ser melhor trabalhando fora de casa do que cuidando das crianças. Uma mulher querer ser assim é meio um insulto. Ela tem que ser sem coração, fria e calculista, para fazer esta escolha. Homens do mundo inteiro fazem esta escolha todos os dias, e não são julgados negativamente por isto.

Do outro lado da moeda, vem a escolha de ficar em casa. Ao decidir estar com seus filhos em tempo integral, estou escolhendo fazer parte de momentos importantes da vida deles. Mais do que criá-los, irei conhecê-los, saber o que meu filho faz, come e gosta. A minha missão e maior conquista passa a ser meus filhos, e aí faz todo o sentido usar as fotos deles como meu perfil, afinal, eles são parte importante de quem sou mesmo.

Os dois lados tem vantagens e desvantagens. Mas a pressão para não errarmos em nossas escolhas, especialmente as relacionadas aos filhos, é enorme. Então a gente radicaliza. A turma do Maternar exagera a alegria obtida com a criação dos filhos e a importância da mãe no futuro do ser humano. A turma do Trabalhar exagera no prazer obtido com a carreira e minimiza a importância do trabalho doméstico. Todo mundo sai perdendo.

Para quem se dedica aos filhos, qualquer problema com eles (genético, comportamental), se torna um reflexo de quem a mãe é. Por exemplo, na reunião com a coordenadora pedagógica da escola da minha filha, ela começou me elogiando pela filha inteligente e líder que eu tinha. Respondi que isso era mérito dela, não meu. Ela: "Mas sem a criação de vocês, ela não seria assim, com certeza." Deixei passar. Logo em seguida, ela me contou das atitudes autoritárias que minha filha estava tendo com os colegas. Ela não disse diretamente, mas eu sabia que ela também achava que isto também era minha responsabilidade. Como já discuti em outro post, já ouvi a frase: "Hitler teve mãe", querendo por a culpa do Holocausto na pobre da mãe do Hitler, ignorando a personalidade dele, o momento histórico, enfim, tudo.

Ironicamente, a pressão em cima de quem decide trabalhar fora é a mesma! Se seu filho está com qualquer problema, é porque você não está sendo presente o suficiente. Quando eu e meu marido viajamos por uma semana, ao voltarmos, minha filha estava com dermatite atópica (provavelmente por nadar em piscina com cloro). Ouvi da pediatra (!!!) que o corpo dela estava reagindo à nossa falta. Trocamos de pediatra, usamos creme hidratante, e, em dois dias, ela estava ótima.

Então, minha proposta é a seguinte:  trégua. Ninguém mais vai criticar a escolha alheia. Se as mães de horário integral querem respeito pelo trabalho doméstico, as que trabalham fora vão apoiar. Se as que trabalham fora precisam de creches mais bem estruturadas e não serem acusadas de serem menos mulheres por isso, as mães de horário integral vão apoiar. Se todo mundo quer uma maior participação dos companheiros em ambos os casos, as mães de horário integral abrem este espaço que não precisa ser só delas, e as que trabalham fora valorizam os homens e mulheres que desempenham estes papéis.

E nossos filhos vão ter problemas. Não vão ser perfeitos, nem excelentes em tudo, nem a melhor coisa do mundo. Serão seres humanos, com personalidade própria, com escolhas e erros, com acertos e talentos. Parte disto será nossa responsabilidade, parte será responsabilidade do mundo, do momento histórico, do sorteio genético e das condições em que eles nasceram. Aceitá-los, amá-los e fazer o melhor possível por eles e por nós, mães de todos os tipos e escolhas, tem que ser o objetivo global.

Assim, todo mundo sai ganhando.

10 de abril de 2013

A fórmula da Criatividade

O cérebro criativo é melhor?
A escola da minha filha mais velha (Alice, 6 anos) fez a reunião de início do ano.
Eu, que sempre fui contra decoreba na escola, aprendi nesta reunião por que decorar algo não é realmente produtivo.
A diretora acadêmica da escola, em um show de apresentação, mostrou que a memorização é a etapa menos complexa do processo de aprendizagem, que, se bem desenvolvido, pode evoluir nos cinco estágios a seguir:
1) Memorização (decorar);
2) Entendimento (compreender);
3) Aplicação (utilizar o que foi compreendido em uma situação prática);
4) Análise crítica (avaliar, criticar, observar falhas e vantagens); e
5) Criatividade (melhorar, modificar, aplicar em áreas correlatas).

Achei fantástica esta descrição, pois hoje em dia, criatividade é superestimada. Parece que a criatividade por si só é considerada o traço de personalidade mais importante que alguém pode ter. Mais do que, por exemplo, a persistência, dedicação, ou paciência (considerados "chatos" ou "muito trabalhosos").

Os cinco estágios descritos mostram claramente que a criatividade é sim, o melhor que se espera em um processo de aprendizagem, mas que, para chegar lá, é necessário o esforço e dedicação dos outros quatro.

Ao dar aulas na faculdade, vejo meus alunos enfrentando este dilema diariamente. A geração voltada para o "eu" (em inglês, I, como em iPhone, iPod, iPad), para o resultado instantâneo (Instagram, Facebook, mensagens de texto), que tem sérias dificuldades em cumprir as fases do entendimento e da análise crítica. Idealmente, para estes alunos, a ordem seria: memorização -> aplicação -> criatividade.

Mas a criatividade não chega, pois as etapas evitadas fazem falta. Exemplos na mídia de garotos de 17 anos vendendo programas por milhões ou de como nem Mark Zuckerberg, nem BIll Gates ou Steve Jobs terminaram a faculdade tornam o conceito de trabalho árduo e recompensador muito distante.

O que os jornalistas não mencionam nestas histórias é que todas estas pessoas trabalharam MUITO durante MUITOS anos para desenvolver as habilidades formais que as permitiram chegar onde chegaram, como mostra o excelente livro "Fora de série - Outliers". Tenho certeza de que na hora de escolher um médico ou advogado, qualquer um de nós prefere alguém que se dedicou por anos a adquirir conhecimento formal do que alguém sem formação e "criativo".

Então porque o mito do trabalho criativo rápido, fácil e lucrativo é muito mais divulgado? Porque estamos em um mundo onde o sucesso pessoal é visto como reflexo de quem você é, independente do ambiente, de onde você começou, das oportunidades que teve. Se o Bill Gates pode, você também pode, é a mensagem. Mas não através do trabalho duro, e sim através de alguma característica pessoal (gênio, brilhante, criativo, iluminado). Acreditar que o sucesso depende da faculdade que você cursa, ou da qualidade da sua escola de primeiro grau, ou até mesmo da cor da sua pele, faria com que tivéssemos que exigir condições iguais para todos. Do jeito que está, é cada um por si, pois a POSSIBILIDADE de sucesso existe para todos (mesmo que PROBABILIDADE seja mínima). É o sonho de ganhar na loteria, com uma capa moderna.

Voltando à criatividade, ainda há a confusão entre:
1) a criatividade produtiva (aquela que resulta em produtos, vendas, melhorias tecnológicas) e  artística (que resulta em quebra de paradigmas, desafio das normas vigentes); e
2) a criatividade "porra louca" (uso de substâncias ilegais, quebra de leis, não enquadramento "no sistema").

Miró no começo (+-1920)
Miró (1968)
A criatividade que vem do processo bem desenvolvido de aprendizagem é a produtiva e artística. Quem já teve a chance de ver trabalhos iniciais de grandes artistas, como Miró, percebe que ele começou no "básico" e foram muitos, muitos trabalhos, antes de atingir o "avançado". Picasso, Monet, Van Gogh e todos os grandes artistas pintaram muita porcaria antes de serem capazes de ser realmente inovadores. Conhecer o clássico é a única forma de criar o moderno.

Mas a criatividade "porra louca", essa é fácil. E é a criatividade defendida pelos adolescentes, e, às vezes, propagandeada como a próxima onda de trabalhos. No Google, dizem, você pode jogar videogame no trabalho, cortar seu cabelo ou até lavar sua roupa. A idéia é que para fazer grandes produtos, é preciso ser criativo, e ser criativo é ficar à toa, brincando. Não me espanta que meus alunos de programação não queiram estudar. O que a maioria das pessoas não percebe é que estas pessoas fariam todas estas coisas em casa, após o horário de trabalho. Agora, as empresas fornecem todos estes serviços para que elas não saiam do escritório. Estas maravilhas para quem trabalha na Google não é para fazer os funcionários felizes, ociosos e criativos; é para que eles possam trabalhar mais, sem interrupção. E todos que estão lá, são extremanente competentes, com uma excelente formação profissional.

O que me lembra uma história famosa (não sei se verdadeira),  sobre o cara que inventou a super-aspirina (e ganhou um Nobel por isto). Dizem que ele rabiscou a fórmula da super aspirina quando estava tomando cerveja em um boteco. Perguntaram a ele se isso era verdade. Ele disse que sim. Perguntaram para ele como se fazia este tipo de descoberta no boteco. Ele respondeu: primeiro você faz seu curso superior na melhor universidade do mundo na área de bioquímica. Depois você faz seu mestrado em bioquímica nesta universidade, tendo um prêmio Nobel como orientador. Depois você faz seu doutorado na mesma universidade, tendo outros dois prêmio Nobel como orientador e co-orientador. Aí, você senta no boteco, pede a cerveja, e inventa a super-aspirina.

Precisamos de criatividade sim. Mas, para atingí-la, a fórmula é dedicação, paciência e trabalho árduo.

22 de janeiro de 2013

MacLanche Infeliz

Quem é o responsável por fazer esta placa?
Faço parte de um grupo de discussão na lista da Liga Humanista Secular , onde um dos tópicos da semana foi se o Governador Geraldo Alkmin deveria sancionar uma lei que se propõe a combater a obesidade infantil através de:
- proibir a venda de alimentos com brinde ou brinquedos; e
- proibir a publicidade de alimentos não saudáveis em rádios e TVs das 6h às 21h, e também em qualquer horário dentro de escolas públicas e privadas.

Como em toda discussão na internet, logo surgiram dois grupos opostos. Um achando que o estado não tem o direito de interferir no direito do cidadão de comer porcaria, que o dever de cuidar disto é dos pais. O outro lado acha que o estado tem sim que proteger as crianças, inclusive dos pais, se necessário.

Segue uma parte dos comentários:
Leandro:
"Que tal uma lei obrigando que as crianças façam no mínimo 2 horas de atividade física por dia, já que o sedentarismo é uma dos aliados da má alimentação no caso da obesidade? Mais até. Que tal uma lei que obrigue os pais a instalarem nos video-games, celulares e computadores um sensor que permita ao governo controlar quanto tempo seu filho utiliza estes aparelhos, já que eles, aliados à má alimentação e ao sedentarismo, são as principais causas da epidemia de obesidade infantil? Posso estender esta lista até... Já que os pais não conseguem cuidar dos próprios filhos, que deixemos que o Estado o faça!" 


Eli:
"Fácil dizer quando não é você tentando educar uma criança enquanto a TV deseduca."


Leandro:
"Em geral existe um botão bem interessante no controle remoto das televisões parecido com este: http://en.wikipedia.org/wiki/File:IEC5009_Standby_Symbol.svg
E é muito útil.
Existe também uma palavra bastante interessante que algumas vezes os pais devem dizer aos filhos: "não". Geralmente ela vem em maiúsculo, tipo "NÃO". Funcionou comigo. Geralmente era seguido com "pode", como em "não pode" ou, mais frequentemente com "tenho dinheiro pra comprar isso", como em "não tenho dinheiro pra comprar isso".
Outras vezes pode ser substituído por "nem", tipo em "nem inventa".
E meu vício em chocolate não está nenhum pouco relacionado à este trauma.
Não me leve a mal, estou sendo visivelmente irônico. De forma séria, acho horrível estas iniciativas de colocar na mão do Estado o que é função dos responsáveis pelas crianças.
E sim, já assisti a boa parte dos documentários sobre consumismo infantil. Mas creio que não seja 10% dos disponíveis, por isso não me importo com a indicação de outros." 


Alexandre:
"Leandro, pelo amor de deus... Comparar essa lei com uma tentativa do Estado educar as crianças no lugar dos pais é completamente ridículo.
Pais e mães estão em desvantagem permanente frente a publicidade. E publicidade NÃO se resume a TV, a publicidade é onipresente. Não é tão simples quanto "desligar a TV". E mesmo "desligar a TV" não é tão simples quanto parece - às vezes a meia hora em que o filho assiste a um programa de TV são os únicos 30 minutos que os pais têm de sossego no dia inteiro.
Esse negócio de colocar brinquedos em lanches atrai crianças como mel atrai abelhas, e isso atrapalha, e muito, pais que tentam alimentar seus filhos de maneira saudável enquanto o filho pede McLanche Feliz incessantemente.
Não sei por que tanto medo de regulamentar esse tipo de coisa. Propagandas de cigarro, por exemplo, são limitadíssimas por regulamentação, mesmo para adultos. Por que seria pior regulamentar outros tipos de publicidade e jogadas de marketing igualmente nocivos?"


Leandro :
"Até hoje não sei se concordo com a proibição das propagandas de cigarro na televisão, nem daquelas nos maços. Não fumo, não bebo, mas não vejo com bons olhos alguém querendo decidir por mim o que posso ou não assistir ou consumir, quando isto afeta única e exclusivamente a minha vida e meu corpo.
A culpa da obesidade das crianças é única e exclusivamente culpa dos pais. Pais que quase sempre têm uma alimentação tão horrível quanto seus filhos. Ah, legal! Vamos então proibir a veiculação de propagandas sobre alimentos que fazem mal à saúde dos adultos também! Já viu pais que possuem bons hábitos alimentares (ou ao menos hábitos não tão ruins) e ensinam tais hábitos às crianças terem filhos obesos? Provavelmente há, mas creio que tais casos sejam exceção.
Se seu filho pede incessantemente um MacLanche Feliz, diga não. Ele vai chorar, espernear, mas isto tudo é chantagem emocional. Ele sobreviverá até os 18 ao menos.
E, analisando o fato de que a TV está influenciando tanto na saúde das crianças me leva a pensar uma coisa: pra isso acontecer, a televisão deve exercer um papel mais ativo do que qualquer outra coisa na vida delas. E, olhando para o mundo real, quantos são os pais que simplesmente "largam" os filhos na frente da televisão, para que eles não encham o saco ou porque os pais têm algo mais importante a ser feito (trabalhar). Quantos destes pais incentivam os filhos a outros tipos de atividades? Pedalar na rua (não pode, é perigoso, tem carro, tem traficante, tem...), ler livros ou mesmo atividades criativas, tais como desenhar, atividades manuais, etc? Não dá, já que os próprios pais provavelmente não tem tais hábitos. E, já que não conseguem educar os próprios filhos, deixam que a escola ou outro agente externo o faça."


Bom, aí eu decidi entrar na discussão:
"Sou mãe de duas meninas, 6 anos e 10 meses.
Nenhuma das duas toma refrigerante, come MacDonalds ou porcaria doce durante a semana.
Sabem por quê? Porque eu meu marido decidimos que eu trabalharia só meio horário, para que eu pudesse estar com elas.
Mas sabe quantas mães PODEM fazer isto? Pouquíssimas. E sabe o que isso fez com minha carreira (até então super bem encaminhada): estagnação, retrocesso.
Entao vamos parar de culpar pais em geral. A esmagadora maioria dos pais quer o melhor para seus filhos, e estão tentando com todas as forças, o melhor que conseguem.
Leis permitem que essas pessoas tenham referências. Pessoas com pouca formação acham que dar MacDonalds para o filho é "dar para o filho um luxo que eu nunca tive", e não uma escolha errada. Veja a questão de bater nas crianças: eu abomino a idéia de bater nas minhas filhas, mas tenho amigas que realmente acham que ao dar a "palmada educativa" estão fazendo o melhor para o futuro dos filhos, os ajudando a crescer e desenvolver. Mas a lei veio, e elas tiveram que se perguntar, será que eu estou certa??
A televisão educa seus filhos porque pai e mãe estao trabalhando para pagar o inglês e a natação, para que os filhos tenham chance de "ser alguém". Fora a escola e a saúde, que deviam ser direito de todos e obrigação do estado e que consome boa parte do salário dos pais.
Então, empatia é bom, e todo mundo gosta, e respostas simples que culpam o caráter dos envolvidos (pais relaxados e incompetentes) ao invés da estrutura total (falta de valorização do trabalho doméstico de quem cuida das crianças; falta de estrutura de creches, escola e saúde para quem precisa trabalhar; falta de informação e cultura das populações carentes, pressão da indústria de alimentos, entre outras) são mais fáceis de engolir, e de esbravejar, mas são geralmente incompletas." 
 


Com isto, a discussão se encerrou, o que eu achei uma pena, pois acho que este assunto rende muito mais idéias. Mais no campo da proposta (tá, o problema é o ambiente, como mudá-lo, então), do que no da culpa (pais, estado, MacDonalds?).
  
Dias depois, assisti o excelente documentário "Muito Além do Peso" (disponível na íntegra gratuitamente), que discute várias destas questões de maneira mais detalhada e com mais informações.

Por fim, meu marido trouxe uma idéia que eu acho ainda mais pertinente do que todas as discussões anteriores: "As crianças não são propriedade dos pais, são cidadãs brasileiras. Por isso, o estado tem a OBRIGAÇÃO de fazer leis para protegê-las, independentemente do quão bom é o trabalho dos pais."

E você, o que acha deste assunto? Deixe sua opinião nos comentários!

14 de janeiro de 2013

Quer emagrecer? Pergunte-me como...

(Em homenagem ao final do ano, onde a maioria da mulheres exagera na comemoração e começa o ano de dieta...)

Chego em um churrasco. O primeiro comentário que ouço é:'"Nossa, você está ótima, nem parece que teve neném! ... Eu tô precisando perder uns cinco quilos, o que você fez?"

Antes que eu possa responder, uma grande amiga interrompe: "Eu estou em uma dieta ótima, um médico me receitou uns remédios, já perdi cinco quilos, quero perder mais cinco!"

Já pega pela promessa, a primeira amiga pede o nome do médico, dos remédios, a descrição das comidas que ela pode comer, e de quanto exercício ela tem que fazer.

Eu fico ouvindo. Como muitas, quase todas as mulheres que conheço, lutei contra a balança por muitos anos. Em três ocasiões distintas, cheguei a mais de 80kg (só uma delas por causa de gravidez) o que levou meu IMC para a faixa do Obesa. E, em incontáveis ocasiões, emagreci dezenas de quilos; na maior e última vez, foram 16kg, mas passei toda a minha adolescencia e boa parte da minha vida adulta ou de dieta ou engordando.

Eu, com 80kg.
Até a última vez, em 2009, a dos 16kg. Minha filha tinha dois anos, eu estava me recuperando de uma depressão, e entrei, pela terceira vez, no Vigilantes do Peso.

Para não me acusarem de propaganda enganosa, vou ensinar como emagrecer os famosos cinco quilos que praticamente toda mulher quer perder (se ela já for magra são só três): coma menos e se exercite, se gostar. Se não gostar de exercício, só comer menos porcarias já resolve. 

Mas, isso todo mundo já sabe! - diria a minha amiga se eu falasse isso para ela. Sim, todo mundo sabe emagrecer... Então, porque não estamos todos magros e felizes com nosso peso?

O verdadeiro problema, que eu só encarei de verdade em 2009, é que este problema não tem uma resposta, e sim várias perguntas cabeludas. 

Para emagrecer de verdade, e para sempre, eu tive que achar a resposta para cada uma delas:

1)  por que eu engordei?
 Ao invés de me perguntar porque não conseguia emagrecer, eu finalmente encarei a pergunta mais difícil: por que eu engordei? A maioria das pessoas vai responder: correria, falta de tempo, stress, problemas genéricos. Mas não foi comida genérica que me engordou, foram os vários bombons no final da tarde, a pizza congelada em todo jantar, os biscoitos na frente da televisão. Comida que não matava minha fome... apenas tentava preencher o vazio dentro de mim quando o dia estava acabando e eu ainda não tinha sido feliz. Comida era a forma mais rápida e fácil de ser feliz. E eu precisava, não, eu merecia aquela dose de felicidade. Mas junto vinha a culpa de estar comendo demais, e eu ficava infeliz de novo... e... comia mais. 

Essa é a parte mais difícil do processo, entender que você tem um problema. E que a comida não é a causa, é o efeito colateral. Que se você não se dedicar a achar a felicidade todo dia, ligando para quem você ama, comprando um sapato novo, fazendo sexo ou lendo um livro, você vai comer demais.

Eu, 70kg.
2) como emagrecer de verdade?
Esse é o pedaço sem mistério. Você pode inventar remédio, dieta do queijo, comer só proteína, não comer proteína, acordar e dormir fazendo abdominal. Desde que gaste mais do que come, vai emagrecer. Tem coisas que ajudam, como alimentos integrais, lanches frequentes e beber água, mas isso tudo eu já tinha ouvido antes. Pus em prática, e lá se foram, em média, meio quilo por semana.

3) emagrecer até quando?
Esta é a hora de discutir aqueles famosos 5 quilos. Comecei calculando meu IMC. Peguei meu peso e dividi pela minha altura ao quadrado: 86/(1,69*1,69) = 30,1.

Se eu estiver entre 18,5 a 24,9 sou uma pessoa normal. Esse é meu IMC hoje. Hoje eu peso 70kg e meço 1,69m, então meu IMC é 70/(1,69*1,69) =24,5. Mas ouço pessoas nesta faixa dizendo que estão "gorda como uma baleia", "enorme de gorda", ou "cheia de celulite".

Mas a pessoa pode estar entre 25 e 29,9, ou seja, com sobrepeso, como 30% das crianças e metade das mulheres deste país, segundo o IBGE.

Acima de 30, como eu estava, é obesidade, e aí, sim, você tem um problema de saúde grave que atinge 17%das mulheres.

Eu decidi emagrecer até entrar na faixa do normal: 70kg para minha altura. E cheguei lá.

Entender que a minha auto-imagem (gorda, feia, etc) não tinha nada a ver com o meu peso real foi o primeiro passo para ser feliz com meu corpo e fazer as pazes com a balança, independente do número da minha calça jeans.

Aliás, detalhe interessante: visto 42/44, considerado G (e estou com IMC normal, que mensagem isso passa???). Muitas amigas minhas que vestem 38/40, se acham mais gordas do que eu, tendo a mesma altura. Onde está o problema?

4) como fazer a manutenção?
Emagrecer não foi fácil, mas, difícil mesmo para mim, sempre tinha sido manter o peso depois que emagrecia. 

A grande maioria das dietas funciona porque é quase uma realidade paralela. Ninguém, por mais força de vontade que tenha, vai viver de queijo branco com torrada e filé de frango com uma colher de arroz para o resto da vida! A vida é cheia de lazanhas, e chocolate, e vinho, e isso é uma coisa ótima! A dieta de manutenção tem que ser realista, ou não vai funcionar. 

Eu descobri que o meu jeito é fazer uma gangorra. Como dizia a Hebe Camargo, quando perguntada se ela tinha problemas de engordar no final do ano: "você não engorda do dia 24 de Dezembro até o dia 2 de Janeiro, você engorda é do dia 2 de Janeiro até 24 de Dezembro... "

Assim, eu percebi que não é o churrasco no sábado ou a festinha de criança no domingo; é no dia a dia. De segunda a sexta, não como doce, nem fritura, como frutas e bebo bastante água. Chego a perder dois quilos. Que eu ganho de novo no final de semana, comendo de tudo que gosto. Na segunda, estou de volta a estaca zero.

Para mim, foi tudo de bom, porque gosto de emagrecer (durante a semana) e gosto de comer sem culpa (no final de semana). Se, por motivo de ferias, ou festas, eu passo dos dois quilos, aperto um pouco nas duas semanas seguintes e volto. O importante é não deixar acumular. Para isso, me peso toda segunda.

Sei que sou como um alcoolatra; se eu não vigiar, vou deixar meus problemas, ansiedade e tristezas voltarem para meus quadris. Mas hoje tento ver isso como um projeto de saúde, de me cuidar, como escovar dentes ou fazer exame preventivo de papanicolau. Não é mais um fardo que eu carrego, é uma conquista.

Boa sorte no seu caminho para achar suas respostas!!

A Última Guerra

 O último mês viu o nascimento do ChatGPT . Pela primeira vez, um programa de computador é capaz de responder à perguntas como um ser humano...