19 de julho de 2013

Interlúdio

O grande prazer da minha vida é falar.

Falo demais, eu sei. Falo muito, eloquentemente, compulsivamente, velozmente.

Às vezes isto é bom. Às vezes não.

Hoje foi bom. Muito bom. Falar com pessoas amigas, inteligentes, alegres. Falar por prazer e comunhão.

Obrigada, Lígia.

Sempre é cedo demais : O livro que deu origem à série

Há muitos, muitos anos atrás...

... eu comecei a escrever um livro.

Ele mudou de forma, conteúdo e objetivo várias vezes. Foi uma coleção de contos, um romance compriiido, um monte de pequenas histórias. Em 2008, eu compilei tudo que ainda gostava em um grande PDF chamado "Sempre é cedo demais" (por causa de um poema no final do livro).

De uma certa forma, foi o caminho para chegar no meu blog, e me orgulho dele. Assim, decidi publicá-lo aqui, em partes, começando hoje. Com vocês, minha obra prima!


Sempre é cedo demais
Ana de Oliveira Rodrigues 
19 de julho de 2013


Agradecimentos
Gostaria de agradecer primeiramente aos meus pais. Sem crescer em uma mistura de compulsão, excesso de amor, inteligência absurda e temperamento explosivo, eu jamais seria o que sou, o que seria uma pena. Minhas irmãs não escaparam ao mesmo destino, e tornam minha família completa.

Em segundo lugar, agradeço ao meu marido, constante universal em um mundo de caos e improbabilidade. Simplesmente por ter me impedido de enlouquecer dezenas de vezes, você tornou este livro possível. Por dar razão à minha vida, você o tornou importante.

Agradeço aos muitos amigos que vieram, ficaram ou foram embora, em especial neste momento à Karina, que me mostra quem eu era, à Ruth, que me mostra quem eu posso ser, à Dani, que me mostra quem eu sou e à Lígia, que me mostra quem eu serei.

Por fim, agradeço às minhas filhas Alice e Rosa, que fazem com que tudo faça sentido. Que vocês possam aprender com os meus erros, para que os seus sejam mais divertidos.


Parte I
Contos, Histórias e Outras Verdades


Capítulo 1: A garota, a Moça e eu

A garota sobe na calçada. Ela tem vinte e cinco anos, e lê um livro. Ela está sempre lendo. A maior parte da vida dela é gasta lendo livros. Ela está lendo agora, e ela está andando. 

Na hora que eu a olho, ela está sorrindo. Alguém no livro fez algo simpático. A garota imagina que foi com ela, e fica feliz. A garota quer viver dentro dos livros que lê. Ela gosta dos livros com romance, mas não romance bobo. Ela gosta daqueles em que você sabe desde o começo quem vai ficar com quem, e os casais passam por dificuldades juntos, não aquela bobagem de tentar se encontrar por anos e no final casar e ser feliz para sempre. 

8 de julho de 2013

A escala Barbie-Marlboro

Eu tenho uma teoria maluca (na verdade, tenho várias, mas esta é uma das minhas preferidas).

Eu inventei uma escala, que batizei de escala Barbie-Marlboro para medir o quanto uma pessoa se enquadra  dentro dos padrões de feminilidade e masculinidade da nossa sociedade. Em uma ponta, temos a Barbie, na outra  o Homem de Marlboro.

Enquanto eu faço as unhas
toda semana...

... eu roo a unha do pé.






É divertido ficar pensando onde cada pessoa se enquadra nesta escala, mas é mais divertido ver como casais se encaixam. 

O Homem de Marlboro tende a se casar com a Barbie. Por outro lado, pessoas menos extremas na escala (como eu, que faço as unhas, mas sou engenheira eletricista) tendem a se casar com pessoas mais perto do centro da escala também (como meu marido, que gosta de uísque, mas troca fralda numa boa). Observação importante, eu acho um barato quando as pessoas saem destes padrões! Eu e meu marido estamos no centro justamente porque fazemos várias coisas que a sociedade considera "papel do outro".

Então, para sua diversão, segue a escala de pontos. Cada ponto F (femininos) cancela um ponto M (masculinos), te levando para o centro da escala. Se no final tiver 10 pontos F, você é uma Barbie Perfeita, 10 pontos M, você já pode cuspir no chão e fazer propaganda do Marlboro.

Se você...
  • ... tem mais de 10 pares de sapatos, some um F
  • ... não sabe a diferença entre celulite e estria, some um M
  • ... faz o "pézinho" na nuca, some um F (se não sabe o que é "pézinho na nuca", some 2 M)
  • ... tem uma parafusadeira elétrica, some um M
  • ... tem uma lixadeira elétrica ou uma serra elétrica (e sabe usar), some dois M
  • ... usa rímel, some um F para cada centímetro de rímel
  • ... leu Cinquenta Tons de Cinza, some um F para cada livro que você leu
  • ... acha que só existem quatro cores: Vermelho, Preto, Verde e Azul, some um M
  • ... sabe a diferença entre Pink, Rosa, Salmão e Bonina, some um F
  • ... vai no salão, some um F para cada vez por semana
  • ... toma cerveja, some um M para cada vez por semana
  • ... troca fraldas, some um F por cada filho (a)
  • ... troca lâmpadas e chuveiros, some um M
  • ... nunca viu novela na vida, some 2 M
  • ... faz testes de personalidade como este, some um F
Minha pontuação final foi de 1F, do meu marido 1M (quase zeramos no meio da escala). 

E você e seu parceiro, quantos marcaram? Mandem sugestões para completar a lista nos comentários!

*** ATUALIZAÇÃO ****

Sugestões de leitores:
  • ... tem nojo de piscina de bolinha de parque infantil, some 1 F

7 de julho de 2013

O corpo é da mulher...

Hoje o post é rapidinho. Só para expressar minha indignação com isto:

Meio cedo para impor papéis para a pobre ciancinha, não???
Sim, aparentemente agora existe algo como "fralda para meninas" (que são princesas, claro, e só podem se vestir de rosa, claro) e "fralda para meninos". Era a marca que eu comprava para minha filha, acabo de mudar para a Pampers em protesto.
Se você acha isto um exagero meu, sugiro:
- Ler o blog Feminismo pra que, no Carta Capital, que discute como as questões de gênero estão moldando o machismo e a violencia contra a mulher, de onde veio a foto abaixo, que mostra a Barbie, e como ela seria se tivesse proporções "reais":
Barbie "normal" e Barbie "normal mesmo"
- Ver Slim Hopes , um documentário brilhante sobre como a mídia impõe uma imagem perfeita (princesas) sobre o corpo feminino, alimentando a baixa autoestima e fazendo das mulheres as maiores compradoras em busca da beleza ideal e inalcançável;
- Seguir e apoiar o Miss Representation , uma organização não-governamental voltada para melhorar a auto estima de garotas do mundo inteiro, cujo lema é "Você só pode ser o que você pode ver", oferecendo alternativas para as garotas.

Rosa e seu capacete de Engenheira...
...e seu carrinho de mão.
No final das contas, boicotei a fralda sexista, porque minhas filhas são minhas princesas, mas também são minhas matemáticas, doutoras, pintoras e engenheiras.

**** Atualização *****
Várias pessoas no Facebook fizeram dois tipos de comentários, que eu gostaria de esclarecer aqui, por ter mais espaço:
1) Adoro e uso estas fraldas, elas são ótimas.
Sem problemas! Aliás, também adoro a qualidade das fraldas. Usei elas com minha filha mais velha (hoje com 7 anos) e usei até agora com a Rosa, que tem 1 ano e 4 meses. Em momento nenhum estou dizendo que a fralda é de má qualidade, ou que você que me lê não deveria usá-las. EU estou boicotando, porque acredito que, como consumidora, minha única força para combater o sexismo na indústria é não comprando produtos que eu acredito que são sexistas. Se você não se incomodou, não tem porque não comprar.

2) Não precisa levar isto tão a sério, é só uma fralda rosa.
Não é só uma fralda rosa. Não tenho nada contra rosa (aliás, minha filha se chama Rosa). Mas me incomoda o fato de que é só rosa.
Quando minha filha mais velha pediu um carrinho de controle remoto de Natal, o único cor-de-rosa era da Xuxa, e só tinha controle para frente e para trás!! Não virava de lado. Ofereci a ela qualquer um dos 40 outros, que, pelo mesmo preço, tinham luzes, andavavam para frente, para tras e para os lados, e faziam sons. Ela me disse que não queria, pois não era de menina, porque não era rosa. Combinei com ela de comprar um vermelho e colar adesivos neles. Mas, ao pintar todas as coisas de rosa, estamos mandando a mensagem para as meninas de que o que não é rosa, não é para elas.
Uma cor só é muito pouco... e para bebezinhos, é muito cedo.

Abraços, e continuemos com a discussão!

12 de junho de 2013

Dia da árvore, do índio, da mulher, e outras barbaridades escolares


Inteligência, liderança, competência, não, né?
Acompanhando o (excelente) blog da Clara Averbuck sobre o dia da mulher, me peguei pensando na barbaridade que é o jeito que as escolas celebram estas datas comemorativas. (Outro post maravilhoso sobre o dia da mulher é o do Sakamoto.)

Especificamente no caso do dia da mulher, recebi de presente dos meus empregadores em uma faculdade aqui de BH um curso de auto-maquiagem da Mary Kay. Eu (e algumas outras professoras) ficamos entre sem jeito e meio fulas, uma vez que a mensagem do presente era:
- mulher TEM que ficar bonita
- não interessa se você é professora com doutorado, você QUER é ficar bonita
- você não vale nada para nós (o curso da Mary Kay é gratuito para todo mundo que quiser, é só ligar e marcar)

Sinceramente, podiam ter me dado um vale de R$5,00 em compra na Livraria Leitura que eu ficava feliz... Valorizava quem eu sou (professora, intelectual, etc), era simpático porque me deixava escolher, e, bom, não me ofendia.

As comemorações do dia das mulheres costuma ser das mais equivocadas em geral. Afinal, quantas pessoas sabem que este dia foi escolhido porque um grupo de mulheres grevistas morreram quando tacaram fogo nelas? Aonde que isso combina com ganhar rosas vermelhas?? Mas acho que o dia da Mulher ainda perde disparado para as comemorações do Dia do Indio em escolas de 1o e 2o grau.

Que fofinha, ne?
Será que ela foi expulsa das terras dela?
 Fuçando na internet, descobri que o Dia do Índio, 19 de abril, é celebrado nas escolas em respeito à lei federal nº 11.645, que torna obrigatório o ensino da cultura negra e indígena nas escolas públicas. Criada em 20 de dezembro de 1996 pelo Lula e pelo Haddad, diz que:

“Art. 26-A.  Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

§ 1o  O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.

§ 2o  Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.”

De onde o pessoal entendeu que isto era a mesma coisa que pintar a cara com guache e fazer cocar de papel reciclado, eu não sei. Ah, peraí, já sei. No segundo parágrafo fica tudo explicado... "em especial nas áreas de educação artística e...". Isso mesmo, educação artística. Sobra para o professor de educação artística comemorar o dia do índio com as crianças. É verdade que tem a história dos índios e negros nos livros de História e Português, mas, no Dia do Índio, nunca vi ninguém chegar em casa contando uma lenda indígena, ou descobrindo que as ruas de Belo Horizonte (Guajajaras, Tupinambás, Tamóios, etc) são nomes de tribos. É só o cocar. E o guache. E, às vezes, um tambor e chocalho (oooo, humilhação!!!).

Devia ter uma lei para incentivar a consciência artística das crianças, mostrar arte de qualidade, ensinar técnicas variadas, mostrar as diversas correntes artísticas, do Renascentismo ao Modernismo, ao Cubismo e ao Abstrato. Mostrar o mundo enorme e vasto da arte, e da Literatura, e da História. Ficar ensinando nossas crianças a se pintarem de verde no dia da árvore, verde e amarelo no da pátria, de faixas coloridas no rosto no dia do Índio, de coelho na Páscoa é um desperdício... A lei devia pelo menos dar a idéia de mostrar pinturas rupestres, cestas e potes de cerâmica verdadeiros, (ainda que em foto ou filme).

Estas "comemorações" a toque de caixa, com pouca ou nenhuma verba, sem incentivo aos professores, só para governo ver, fazem um desserviço ao próprio tema. Banaliza. A repetição do cocar colorido, ou da rosa vermelha, tira a força da luta dos povos e mulheres que batalharam por seus direitos, e que deveriam ser lembrados neste dia. Me fale o nome de um único índio importante na história do Brasil. De uma feminista brasileira.

Até aprendermos a respeitar a luta do passado, era melhor mesmo a gente comemorar só o Dia da arvore, já que árvore não se ofende.

*****

PS.2: depois que publiquei o post, meu marido fez uma colocação muito boa: "No dia do índio as crianças pintam a cara, batem tambor, uma encenação infantilizadora. Queria ver a confusão que ia dar se alguém resolvesse pintar todas as crianças de negras no dia da Consciência Negra."
E eu imagino que esta diferença seja causada pela quase total ignorância que temos da verdadeira cultura indígena. A cultura negra está em todos nós. Mesmo que representada de maneira equivocada muitas vezes, os negros no Brasil são parte presente de todas as escolas, todas as famílias. Mas o índigena não. Não tem nem um indígena na escola para defender sua honra, sua dignidade, sua cultura.

23 de abril de 2013

Maternar X Trabalhar: Um pedido de Paz

Paz entre as mães...
Esta semana minha irmã me mostrou três posts que discutem a onda de colocar as fotos de filhos como sua foto no Facebook.

O primeiro critica esta atitude, dizendo, em resumo, que esta é a derrota do feminismo, já que as mulheres estariam se identificando apenas como mães, ignorando todas as conquistas do feminismo. Igualando estas mulheres a pessoas sem identidade, desprovidas de ambição.

Os outros dois, um meio piegas e o outro meio irritado, defendem a honra e direito de ser mãe, uma tarefa sublime e uma das maiores (se não a maior) conquista de uma mulher.

Eu fico triste com todos eles. Esta guerra entre Maternar x Trabalhar é um caso clássico de economia, como eu aprendi em um livro divertidíssimo sobre teorias econômicas aplicadas à criação de filhos ("Parentonomics" de Joshua Gans). A idéia básica é esta: toda vez que duas escolhas opostas apresentam muitas vantagens e desvantagens, com opções complexas e cheias de variação, fica muito difícil decidir qual é a melhor escolha. Neste cenário, ao tomar a decisão, você acaba tendo que radicalizar as vantagens da sua escolha, ou as desvantagens da outra, para justificar a sua decisão.

No caso específico do Maternar x Trabalhar, cada mãe (e cada pai) vai ter que equilibrar seus valores, suas condições financeiras, seus talentos e o que é melhor para ela e sua família, e duas famílias nunca serão iguais.

Ao decidir trabalhar fora, tenho mais dinheiro, uma carreira cheia de conquistas e desafios estimulantes, não dependo do meu companheiro economicamente. Eu decido que não tenho talento para criar filhos em tempo integral. A maioria das pessoas assume isto automaticamente de todo homem. Que ele vai ser melhor trabalhando fora de casa do que cuidando das crianças. Uma mulher querer ser assim é meio um insulto. Ela tem que ser sem coração, fria e calculista, para fazer esta escolha. Homens do mundo inteiro fazem esta escolha todos os dias, e não são julgados negativamente por isto.

Do outro lado da moeda, vem a escolha de ficar em casa. Ao decidir estar com seus filhos em tempo integral, estou escolhendo fazer parte de momentos importantes da vida deles. Mais do que criá-los, irei conhecê-los, saber o que meu filho faz, come e gosta. A minha missão e maior conquista passa a ser meus filhos, e aí faz todo o sentido usar as fotos deles como meu perfil, afinal, eles são parte importante de quem sou mesmo.

Os dois lados tem vantagens e desvantagens. Mas a pressão para não errarmos em nossas escolhas, especialmente as relacionadas aos filhos, é enorme. Então a gente radicaliza. A turma do Maternar exagera a alegria obtida com a criação dos filhos e a importância da mãe no futuro do ser humano. A turma do Trabalhar exagera no prazer obtido com a carreira e minimiza a importância do trabalho doméstico. Todo mundo sai perdendo.

Para quem se dedica aos filhos, qualquer problema com eles (genético, comportamental), se torna um reflexo de quem a mãe é. Por exemplo, na reunião com a coordenadora pedagógica da escola da minha filha, ela começou me elogiando pela filha inteligente e líder que eu tinha. Respondi que isso era mérito dela, não meu. Ela: "Mas sem a criação de vocês, ela não seria assim, com certeza." Deixei passar. Logo em seguida, ela me contou das atitudes autoritárias que minha filha estava tendo com os colegas. Ela não disse diretamente, mas eu sabia que ela também achava que isto também era minha responsabilidade. Como já discuti em outro post, já ouvi a frase: "Hitler teve mãe", querendo por a culpa do Holocausto na pobre da mãe do Hitler, ignorando a personalidade dele, o momento histórico, enfim, tudo.

Ironicamente, a pressão em cima de quem decide trabalhar fora é a mesma! Se seu filho está com qualquer problema, é porque você não está sendo presente o suficiente. Quando eu e meu marido viajamos por uma semana, ao voltarmos, minha filha estava com dermatite atópica (provavelmente por nadar em piscina com cloro). Ouvi da pediatra (!!!) que o corpo dela estava reagindo à nossa falta. Trocamos de pediatra, usamos creme hidratante, e, em dois dias, ela estava ótima.

Então, minha proposta é a seguinte:  trégua. Ninguém mais vai criticar a escolha alheia. Se as mães de horário integral querem respeito pelo trabalho doméstico, as que trabalham fora vão apoiar. Se as que trabalham fora precisam de creches mais bem estruturadas e não serem acusadas de serem menos mulheres por isso, as mães de horário integral vão apoiar. Se todo mundo quer uma maior participação dos companheiros em ambos os casos, as mães de horário integral abrem este espaço que não precisa ser só delas, e as que trabalham fora valorizam os homens e mulheres que desempenham estes papéis.

E nossos filhos vão ter problemas. Não vão ser perfeitos, nem excelentes em tudo, nem a melhor coisa do mundo. Serão seres humanos, com personalidade própria, com escolhas e erros, com acertos e talentos. Parte disto será nossa responsabilidade, parte será responsabilidade do mundo, do momento histórico, do sorteio genético e das condições em que eles nasceram. Aceitá-los, amá-los e fazer o melhor possível por eles e por nós, mães de todos os tipos e escolhas, tem que ser o objetivo global.

Assim, todo mundo sai ganhando.

10 de abril de 2013

A fórmula da Criatividade

O cérebro criativo é melhor?
A escola da minha filha mais velha (Alice, 6 anos) fez a reunião de início do ano.
Eu, que sempre fui contra decoreba na escola, aprendi nesta reunião por que decorar algo não é realmente produtivo.
A diretora acadêmica da escola, em um show de apresentação, mostrou que a memorização é a etapa menos complexa do processo de aprendizagem, que, se bem desenvolvido, pode evoluir nos cinco estágios a seguir:
1) Memorização (decorar);
2) Entendimento (compreender);
3) Aplicação (utilizar o que foi compreendido em uma situação prática);
4) Análise crítica (avaliar, criticar, observar falhas e vantagens); e
5) Criatividade (melhorar, modificar, aplicar em áreas correlatas).

Achei fantástica esta descrição, pois hoje em dia, criatividade é superestimada. Parece que a criatividade por si só é considerada o traço de personalidade mais importante que alguém pode ter. Mais do que, por exemplo, a persistência, dedicação, ou paciência (considerados "chatos" ou "muito trabalhosos").

Os cinco estágios descritos mostram claramente que a criatividade é sim, o melhor que se espera em um processo de aprendizagem, mas que, para chegar lá, é necessário o esforço e dedicação dos outros quatro.

Ao dar aulas na faculdade, vejo meus alunos enfrentando este dilema diariamente. A geração voltada para o "eu" (em inglês, I, como em iPhone, iPod, iPad), para o resultado instantâneo (Instagram, Facebook, mensagens de texto), que tem sérias dificuldades em cumprir as fases do entendimento e da análise crítica. Idealmente, para estes alunos, a ordem seria: memorização -> aplicação -> criatividade.

Mas a criatividade não chega, pois as etapas evitadas fazem falta. Exemplos na mídia de garotos de 17 anos vendendo programas por milhões ou de como nem Mark Zuckerberg, nem BIll Gates ou Steve Jobs terminaram a faculdade tornam o conceito de trabalho árduo e recompensador muito distante.

O que os jornalistas não mencionam nestas histórias é que todas estas pessoas trabalharam MUITO durante MUITOS anos para desenvolver as habilidades formais que as permitiram chegar onde chegaram, como mostra o excelente livro "Fora de série - Outliers". Tenho certeza de que na hora de escolher um médico ou advogado, qualquer um de nós prefere alguém que se dedicou por anos a adquirir conhecimento formal do que alguém sem formação e "criativo".

Então porque o mito do trabalho criativo rápido, fácil e lucrativo é muito mais divulgado? Porque estamos em um mundo onde o sucesso pessoal é visto como reflexo de quem você é, independente do ambiente, de onde você começou, das oportunidades que teve. Se o Bill Gates pode, você também pode, é a mensagem. Mas não através do trabalho duro, e sim através de alguma característica pessoal (gênio, brilhante, criativo, iluminado). Acreditar que o sucesso depende da faculdade que você cursa, ou da qualidade da sua escola de primeiro grau, ou até mesmo da cor da sua pele, faria com que tivéssemos que exigir condições iguais para todos. Do jeito que está, é cada um por si, pois a POSSIBILIDADE de sucesso existe para todos (mesmo que PROBABILIDADE seja mínima). É o sonho de ganhar na loteria, com uma capa moderna.

Voltando à criatividade, ainda há a confusão entre:
1) a criatividade produtiva (aquela que resulta em produtos, vendas, melhorias tecnológicas) e  artística (que resulta em quebra de paradigmas, desafio das normas vigentes); e
2) a criatividade "porra louca" (uso de substâncias ilegais, quebra de leis, não enquadramento "no sistema").

Miró no começo (+-1920)
Miró (1968)
A criatividade que vem do processo bem desenvolvido de aprendizagem é a produtiva e artística. Quem já teve a chance de ver trabalhos iniciais de grandes artistas, como Miró, percebe que ele começou no "básico" e foram muitos, muitos trabalhos, antes de atingir o "avançado". Picasso, Monet, Van Gogh e todos os grandes artistas pintaram muita porcaria antes de serem capazes de ser realmente inovadores. Conhecer o clássico é a única forma de criar o moderno.

Mas a criatividade "porra louca", essa é fácil. E é a criatividade defendida pelos adolescentes, e, às vezes, propagandeada como a próxima onda de trabalhos. No Google, dizem, você pode jogar videogame no trabalho, cortar seu cabelo ou até lavar sua roupa. A idéia é que para fazer grandes produtos, é preciso ser criativo, e ser criativo é ficar à toa, brincando. Não me espanta que meus alunos de programação não queiram estudar. O que a maioria das pessoas não percebe é que estas pessoas fariam todas estas coisas em casa, após o horário de trabalho. Agora, as empresas fornecem todos estes serviços para que elas não saiam do escritório. Estas maravilhas para quem trabalha na Google não é para fazer os funcionários felizes, ociosos e criativos; é para que eles possam trabalhar mais, sem interrupção. E todos que estão lá, são extremanente competentes, com uma excelente formação profissional.

O que me lembra uma história famosa (não sei se verdadeira),  sobre o cara que inventou a super-aspirina (e ganhou um Nobel por isto). Dizem que ele rabiscou a fórmula da super aspirina quando estava tomando cerveja em um boteco. Perguntaram a ele se isso era verdade. Ele disse que sim. Perguntaram para ele como se fazia este tipo de descoberta no boteco. Ele respondeu: primeiro você faz seu curso superior na melhor universidade do mundo na área de bioquímica. Depois você faz seu mestrado em bioquímica nesta universidade, tendo um prêmio Nobel como orientador. Depois você faz seu doutorado na mesma universidade, tendo outros dois prêmio Nobel como orientador e co-orientador. Aí, você senta no boteco, pede a cerveja, e inventa a super-aspirina.

Precisamos de criatividade sim. Mas, para atingí-la, a fórmula é dedicação, paciência e trabalho árduo.

A Última Guerra

 O último mês viu o nascimento do ChatGPT . Pela primeira vez, um programa de computador é capaz de responder à perguntas como um ser humano...