10 de outubro de 2021

Fui abandonada por Ted Lasso. Mas não vou reverter à barbárie, apesar de ser minoria.

Cadê as minorias mesmo?
 Terminei de assistir à segunda temporada de Ted Lasso.

Me sinto traída, abandonada, enganada.

A primeira temporada, que merecidamente ganhou diversos prêmios, foi um alento de alegria, bondade, bom humor em um ambiente televisivo marcado pela pandemia, tristeza, amargura. 

Ted Lasso chegou prometendo, e entregando, uma nova versão do masculino e do feminino, um mundo onde éramos mais gentis, mais abertos, mais felizes. Engraçado e delicado, confesso que chorei em vários episódios. O final da primeira temporada redefiniu o que era ganhar, o que era uma relação saudável, o que era amizade e amor. Um primor.

Começa a segunda temporada, e o clima é diferente. O primeiro sinal de que as coisas seriam diferentes foi o relacionamento de Sam Obisanya com sua chefa, Rebecca. Em plena era pós #MeToo me pareceu imperdoável que Rebecca ficasse incomodada com o fato de ser mais velha do que ele, mas não de ser chefa dele! Já comecei a torcer contra o casal.  No final da temporada (SPOILER), ele fica sem ela, sem a oportunidade de ser o jogador mais importante de um time no seu próprio país, e decide... abrir um restaurante?

O segundo ponto é o arco de Natan. O personagem vai crescendo durante a segunda temporada, não de uma forma saudável. Natan começa a disputar poder com Ted, mostrando sinais de ganância, superficialidade. Ao questionar o Coach Beard "Vocês às vezes não sentem vontade de ser o chefe?", recebe uma resposta surreal nas linhas de: "Segundo o trabalho de fulana, árvores crescem sem disputar o sol. Elas são uma comunidade socialista, não de competição." Isso não faz o menor sentido em um ambiente onde claramente tem um chefe (Ted). E o que Natan queria era apenas ser reconhecido por seu trabalho e suas ideias, que é exatamente o que Ted faz no final, mostrando que Natan estava certo em querer isto... 

Quando Natan chega a beijar Keeley, em seu projeto de se aproximar do poder pagando por roupas caras e, logo, merecendo a mulher bonita, Roy não considera ele uma ameaça, a ponto de nem se irritar. O problema de Natan não é o que ele faz, ou deixa de fazer. O problema é que ele quer a atenção dos poderosos, Ted e Roy (este último, inclusive, é um dos roteiristas da série). Natan termina seu processo em direção ao sucesso mandando Ted se fuder e indo trabalhar para o "inimigo".

Por fim, e o mais problemático na minha opinião, é o personagem do bilionário Edwin Akufo. Sedutor, conhecedor de arte e boa comida. Oferece a Sam poder, fama e muito dinheiro, além da oportunidade de melhorar seu país natal e ter orgulho de sua origem africana. Bilionário, tem aos seus pés tudo que quer. Entretanto, quando Sam recusa sua oferta, ele reverte à barbárie. Ameaça arruinar a vida de Sam, ao que este responde sorrindo e achando graça. Akufo então descreve como irá defecar na casa onde Sam nasceu, queimar tudo, e defecar novamente em cima das cinzas; enforca um manequim e, novamente, mostra que está defecando sobre ele. Tudo isto sob o sorriso incrédulo de Sam, que parece contente de saber que fez a escolha certa: ser o terceiro jogador em um time pequeno, atrás do homem branco, e da mulher branca que nunca será dele.

O problema com estes arcos é que estas são as poucas representações de minorias com algum tipo de poder na série. Enquanto os personagens brancos (Ted, Rebecca, Keeley, Roy, Coach Beard, Jamie and Higgins) tem seu privilégio garantido e não questionado, a ascensão de Natan ao poder, assim como de Akufo, resulta em personagens cobertos de ódio, rancor, ameaça e traição (e fezes e cuspe...). A mensagem não podia ser mais clara: oferecer às minorias poder é inútil, porque eles não sabem o que fazer com ele. Os exemplos de "boa minoria" são de Sam, obediente, subserviente aos interesses dos brancos, versão moderna do "negro que ri" (sim, ele sorri o tempo todo); e da Dra. Sharon, versão moderna da negra sábia, que, quando trata de Ted Lasso, acaba com ele "fazendo dela uma melhor terapeuta" no processo. Os roteiristas estavam tão desorientados com uma personagem negra inteligente e bem sucedida, que tiveram que desaparecer com ela, literalmente, sem dar uma explicação. A pessoa que veio resolver os problemas do time acabou mentalmente desestabilizada... porque o Ted Lasso resolveu fazer terapia.

Voltando ao meu sentimento de abandono... Terminei a série triste. Tenho visto séries populares fazendo essa gracinha comigo. Eles começam com uma premissa super moderninha:

- Modern Family: família de gays, imigrantes, divorciados;

- Weeds: mãe de família vendendo drogas;

- Ted Lasso: homens sensíveis e gentis, mulheres independentes e inteligentes;

- For All Mankind: mulheres astronautas.

A primeira temporada ganha seu coração, e abre sua mente para o que está por vir. Então, a guinada. Valores conservadores e racistas vão tomando conta. As mulheres pagam preços caros por sua independência (geralmente são bem sucedidas, mas sozinhas e sem amor). As minorias ou apoiam os brancos dominantes, ou são estereotipadas e transformadas em bandidos. Eu ficaria mais triste, se não achasse que é de propósito. Que é uma forma discreta (e eficiente) de furar a bolha, e ganhar os ouvidos de uma platéia jovem, liberal e moderna, lentamente apresentando conceitos e ideias mais velhas do que o futebol.

Agora fico de olho: se tem gente bebendo álcool o tempo todo, já desconfio. Se estão fumando, é batata. Não vou reverter à barbárie. Vou colocar meu ponto de vista, de maneira clara e madura, neste post. E escolher melhor com o que eu gasto meu tempo.

3 de agosto de 2021

Marvel: chega. (ou - Por quê o final de Loki é muito pior do que eu podia imaginar)

Eu não sou uma garota típica. Eu cresci lendo histórias em quadrinhos. E não era turma da Mônica, ou Pato Donald. Eu gostava mesmo era de revistinha de super-herói. O Batman era de longe meu favorito, gastava todo dinheiro que tinha em graphic novels. 

Mas outros heróis como a Liga da Justiça e Homem Aranha também tinham seu lugar no meu coração. Li os clássicos todos, inclusive Crise nas Infinitas Terras. Eu era mais DC do que Marvel, mas comprava a cada 15 dia revistas para acompanhar sagas em diversos volumes. Só parei depois que casei, e foi com imensa tristeza que vendi a coleção quando me mudei para o exterior. 

Então, quando os heróis começaram a aparecer na telona, eu fiquei maravilhada. Não perdi um único filme até hoje. Eu que arrastava marido e amigos para ver na pré-estréia o último fortão de capa e espada voando e socando. 

Quem acompanha esse blog sabe do meu feminismo militante. Eu reconhecia todos os problemas, a objetificação, as saias curtas e os saltos altos. Mas, dava um desconto. Achava que, quanto mais mulheres vissem os filmes pressionassem, mais ia melhorar. Problematizava, pensava em como podia ser melhor, e bola pra frente. E, às vezes, era. 

Capitã Marvel vem à cabeça como a melhor tentativa. Apesar de ainda ser loira, branca e jovem, já era a pessoa mais poderosa do filme, a história era boa, e, supresa, ela que salva todo mundo no final. Parecia uma nova era onde eu ia poder torcer por mulheres também. 

Mas durou pouco. Acabei de terminar a primeira temporada de Loki. Eu já tinha posto a Marvel de quarentena depois de Wanda Vision, por motivos que valem outro post, mas minha filha adolescente falou bem, resolvi dar uma chance.

--- MEGA spoilers daqui para frente --- 

Os primeiros 5 episódios (de 6) são um primor. Idéias interessantes, personagens com profundidade, praticamente o mesmo tempo de tela dos Lokis protagonistas. Me incomodava um pouco ela não ser Loki, ser Sylvie, mas, vá lá, acho que vão explicar depois (não, não explicam). Eles jogam uma bola alta para a galera LGBT, identificando ambos como bi-sexuais, e vai parecendo que o simples fato dela ser mulher faz dela a melhor Loki de todos os tempos. 
  • Pausa para a pulga atrás da orelha número 1: Tem Loki jacaré. Tem, literalmente, dezenas de Lokis. E uma única mulher Loki. Isso cai no velho estereótipo da "mulher especial". Ou seja, mulheres comuns não podem ser heroínas, só as especiais, que, por definição, não são "mulheres de verdade"... mas, ainda estou confiando no futuro desta timeline. 
Em um dos primeiros 5 episódios tem uma cena que me deixou muito desconfortável: a bebedeira no trem. Depois de fazerem um esforço enorme para entrar no trem disfarçados, para carregar o dispositivo que é a ÚNICA chance que eles tem de se salvarem, a Sylvie dorme (aparentemente, só ela precisa disso), e o Loki cai na farra. Bebe todas, arruma briga e ambos acabam atirados para fora do trem e o dispositivo destruído. Logo depois desta cena, ele pede desculpas, e fica TUDO BEM!! O cara acabou de ser irresponsável, destruiu a única esperança dos dois, e a desculpa é: é assim que eu sou. O problema com essa lógica é que homens que bebem demais e maltratam suas companheiras, destruindo a vida de ambos, são muito reais. A série normatiza isso. No final deste mesmo episódio, eles tem uma cena romântica juntos, dando a entender que isso é amor de verdade. A única coisa entre estes dois momentos são eles correndo para tentar alcançar a nave. Ele não faz nada para se redimir, ou dizer que vai ser diferente. Eu já começo a torcer contra eles ficarem juntos. 

Aí a gente chega no último capítulo. De cara, já tem problema sério: ao oferecer aos dois Loki (que, lembra aí comigo, são teoricamente a mesma pessoa) o futuro ideal, o Loki macho tem a opção de, LITERALMENTE, ter todo o poder do mundo, inclusive as Infinity Stones, que, se você acompanha Marvel, é tipo tudo. Enquanto isso, a Loki mulher pode ter... uma vida sem solidão, com boas memórias. OI?!?! Desculpa, ouvi direito? O irmão aqui leva o UNIVERSO conhecido e eu ganho família, cachorro e casa com cerquinha branca? 
  • Pulga atrás da orelha 2 (que agora já virou tipo aranha caranguejeira): A ideia de que mulher só quer casa, família e amor e que, quando não tem, vira frígida, maluca e agressiva é outro estereótipo prá lá de velho, usado para justificar porque a mulher tem que "escolher" entre carreira e amor. Se ela quiser sucesso, vai ter que se conformar em ser infeliz e rancorosa. Essa pegou pesado. Tá ficando difícil de ignorar. 
Mais um tempo depois (quase infinito, porque o diálogo saiu pela janela, o ator que faz o super dono da porra toda está péssimo no papel, e eles repetem tudo 30 vezes para a galera ter certeza que entendeu) e o dilema que se apresenta é: derrubar o status quo (TVA) ou um futuro milhões de vezes pior. 
  • Pulga mordendo e arrancando pedaço da orelha 3 (com arrepios de flashback de Mulan remake): a ameaça de futuro muito pior é, de longe, a ameaça mais eficiente contra derrubar o patriarcado. Esse argumento é a famosa falácia do espantalho, onde a pessoa exagera tanto o que vai acontecer que você fica com medo, mesmo que as consequências reais sejam muito menores (tipo: se deixar casar homem com homem, daqui a pouco tão casando galinha com gente!). Toda vez que alguém defende ditadura perto de mim, dá até arrepio. Mesmo de brincadeira. Pode não, Marvel. 
Aí tudo desgringola de vez. É tanta coisa, que eu vou ter que fazer lista: 

1. A Loka diz que foi pessoal para ela, o CARA (não sei o nome da figura) ter acabado com a vida dela. O CARA responde que tá de boas porque ela fez coisas ruins. Argumento tipo "direitos humanos para pessoas direitas". Tá, combina com a defesa da ditadura. Arrepios novamente.

2. A Loka decide matar o CARA (que tinha acabado de confessar que tava mentindo 10 segundos antes). O Loko pula na frente. Ignora o fato de que ela ia ter rancado o pescoço dele fora porque ninguém pára uma espada no meio do golpe. Vai para a parte que o Loko resolve dialogar e ela sai na porrada com o Loko. Loko todo legalzinho, querendo pensar, e ela sangue nos óio só descendo o cacete. 
  • Pulga já fazendo festa com o percevejo 1 milhão: Mulheres não são racionais. Mulheres são loucas desvairadas. Mulheres não podem ter poder porque elas não sabem pensar na hora, e são muito emotivas. Ai que preguiça... 
3. Aí, a Loka parte o coração do Loko. Ele se abre, frágil, e ela dá um pé na barriga dele (literalmente).  Eu ia respeitar mais o roteiro se, nessa hora, a Marvel tivesse coragem de assumir o "plot twist", e a Loka matasse o Loko. Porque ela não faz isso. Ela manda ele para um outro universo, deixando aberta a porta da dúvida: ela gosta dele ou não. Não tem a menor lógica. Se ela gosta dele, senta e conversa dois minutos (aliás, a escolha lógica nesse momento). Se não gosta, passa a faca e continua na missão. Fica difícil continuar envolvida na trama quando os personagens começam a fazer coisas sem sentido.

4. E aí vem é o momento Incel do negócio. Incel vem de "involuntary celibatary" - celibatário involuntário. É um grupo de homens que tem raiva das mulheres porque eles querem namorar e transar, mas as mulheres teoricamente não gostam de homem decente, só homem rico, então eles não tem companheiras. Geralmente tem ódio de feministas e acreditam que são extremamente injustiçados. Na série, a gente fica uns bons minutos vendo a cara do Loki se transformando. Que o cara bonzinho, que confia em mulher, na verdade se lasca, e que não dá para confiar em mulher mesmo. 

O que tá faltando nesse momento é a perspectiva dela. Se ela não gosta dele, qual o problema? Ela não é obrigada a gostar dele. Aliás, ele não deu lá muitas razões para ela gostar dele. A única perspectiva que a gente tem aqui é a dele, que parece que está "evoluindo e aprendendo a amar", através de tortura (!!!) e insights através de interrogatórios com a polícia (!!!!).  Mas ela está em uma missão, única. De destruir as pessoas que acabaram com a vida dela quando ela era só uma criança. Ele cresceu como um príncipe! Ela foi uma criança foragida vivendo literalmente em zonas de guerra. Ela não era sozinha porque tava a fim. Ela foi uma criança em situação de vulnerabilidade a vida toda! Meia dúzia de encontros com um cara mentiroso, beberrão e egoísta deviam fazer ela mudar de ideia?

5. E termina o episódio com ela matando o cara, e as timelines explodindo. Claro que vai ter outra temporada, e esses finais que não são satisfatórios é a receita atual da Netflix em geral e da Marvel em particular para te viciar. Essa insatisfação associada com um gancho surpreendente para a continuação é necessária para garantir que você volta na próxima temporada. Onde eles vão vender mais tempo para mostrar os personagens bebendo uísque. Aliás, tem multiversos na Netflix, mas a única coisa comum em todos eles é que a galera bebe uísque pra valer. E fuma quando pode. Começa a reparar.

Conclusão final: a Marvel não melhorou. A caricatura de mulher sexualizada, bunduda e peituda e de salto alto foi substituída por outras. Da loirinha bonitinha e comportada que ajuda de vez em quando. Da mulher corajosa e fria que não consegue ser racional, só agressiva. Que o que toda mulher quer é ter casa, comida e roupa lavada. Que relacionamentos bons são com caras abusivos, mentirosos e que bebem. Que se Loki fosse mulher, seria bem pior. Pra mim deu. Não me pegam mais.

---
Epílogo: As coadjuvantes. 

Se a representação feminina é problemática, as de mulheres de minorias não ajuda nada. 

Os protagonistas são duas pessoas brancas (três se contar o Moebius). Os negros, embora apareçam e tenham papéis importantes, estão desproporcionalmente do lado errado da história. 

O CARA é negro (além de cientista maluco), assim como a Juíza, que aparentemente sabe de tudo, mas mesmo assim prende criancinhas. A B-15 até que vira de lado, e ajuda os protagonistas e vai presa, depois que é, LITERALMENTE, iluminada pela mulher branca. O Loki negro trai os outros dois Loki, criança e velho, ambos brancos, que não voltam para a TVA e decidem ajudar Loka e Loko sem o menor motivo lógico. A única neutra é a C-20, que acaba assassinada pela TVA. 

Enfim, os negros acabam mortos ou presos. A única que se salva (?) é a Juíza, que ninguém sabe onde está, depois de trair o melhor amigo (branco), mentindo para ele. Não vou me alongar muito nessas análises porque esse não é meu lugar de fala, mas dá para ver claramente que não tá bom isso aí.

27 de março de 2021

Educação: produto, serviço, ou... ideal?

Quando gastamos dinheiro, geralmente estamos comprando um produto ou um serviço.

Se eu compro um carro, estou comprando um produto. Se eu contrato um encanador para trocar a válvula do banheiro, é um serviço.

Quando eu compro um produto, eu tenho sempre razão. Ao comprar um carro, eu espero que ele seja exatamente da cor que eu escolhi, com acessórios específicos, potência do motor que eu preciso, da marca que eu escolhi. O preço depende de quanto produto eu vou receber (dois carros custam o dobro de um carro). A única opção do vendedor é tentar me oferecer exatamente o que eu quero, ou falar que infelizmente não tem. A balança da decisão do "como será feito" pesa para o meu lado.

Quando eu contrato um serviço, é diferente. Eu estou contratando experiência. O motivo pelo qual o encanador troca a válvula e eu não é porque ele sabe melhor do que eu como fazer isto. O preço depende da dificuldade do serviço, mas não necessariamente de quanto tempo vai levar. Qualquer pessoa pagaria mais para um encanador que terminasse o serviço em uma hora do que um que levasse três dias com seu banheiro interditado. O que eu contrato nesse caso é o resultado final, não como o processo será desenvolvido. A balança da decisão do "como será feito" pesa para o lado do especialista (encanador, nesse caso).

A parte mais sensível desta comparação é óbvia: enquanto vender e entregar um produto requer menos conhecimento e experiência sobre o produto, e mais talentos de relacionamento pessoal, serviços dependem de profissionais mais qualificados, com mais experiência, que exigirão salários maiores e que precisam saber exatamente o que estão fazendo.

Mas com educação, estas definições se complicam. Quando um aluno (ou seus responsáveis) contratam um curso, ou pagam uma faculdade, o que exatamente eles estão comprando? Podemos considerar cada curso e o conhecimento derivado dele como um produto? Ou é um serviço, onde o especialista é o educador, e o resultado final é o aprendizado?

Nos meus (quase) 20 anos de docência, tenho observado que o ponto de vista da instituição com relação à isso é fundamental. Se os alunos são considerados consumidores de produtos, a experiência do aluno é o foco. Professores que são muito exigentes, pouco sociáveis, ou mal avaliados pelos alunos, são aconselhados a procurar outro emprego. O foco do processo é em resultados mensuráveis, como número de alunos empregados ao final do curso, percentual de alunos que repetem matérias, número de alunos que desistem do curso. Geralmente os professores mais valorizados são aqueles professores tipo standup show, que dão aulas expositivas engraçadas, divertidas, cheias de piadas e cumplicidade com os alunos.

Se, por outro lado, o ensino é considerado um serviço, é bem diferente. O foco é no processo de aprendizagem. Os professores mais valorizados são aqueles com mais experiência, vivências e metodologias que auxiliam o aluno a aprender de verdade. A independência do aluno é fundamental neste processo, e o processo é muito mais difícil para o aluno. Os professores sabem que não precisam mastigar o conteúdo, e podem cobrar o que consideram imporante na prova. Muitos são avaliados mal pelos alunos, principalmente os que não conseguem acompanhar o ritmo. Mesmo com técnicas de auxílio à aprendizagem, como metodologias ativas, aprender qualquer coisa em profundidade é sempre mais difícil do que superficialmente.

Comparar estes estilos de educação lembra muito as escolhas que fazemos no processo de criar uma criança. Deixar a criança feliz o tempo todo, atendendo a todos os seus mínimos desejos, é uma forma simples de estragar a vida dela. Aprender a lidar com a frustração, desenvolver independência, entender limites e investir energia e tempo em desenvolver suas habilidades é a base para um ser humano completo e que tem orgulho das próprias conquistas.

Mas tem uma terceira opção que não considerei no princípio: também gastamos dinheiro em um ideal. Quando eu faço uma doação para uma ONG, quando eu pago impostos, quando eu doo dinheiro para uma campanha política, eu estou apostando em um ideal. Eu estou escolhendo um mundo melhor, onde o meu dinheiro é um incentivo para mudanças e melhorias em algum aspecto do mundo.

Seymor Papert, um educador maravilhoso, descreve no seu livro Mindstorms que educação deveria sempre ser hard fun (diversão difícil). Que os alunos deveriam ser estimulados a aprender sempre, de forma independente, construtiva, ligada aos seus interesses e suas paixões, seus colegas e família, seu impacto no mundo. Não porque no futuro isto irá dar a eles um diploma (produto), ou porque eles irão receber dos professores instruções e habilidades valiosas (serviço). Carl Rogers, em Aprendizagem Centrada na Pessoa, também defende que crescimento pessoal é uma necessidade intrínsica do ser humano, e que sem isso não é possível ser feliz de verdade (congruência). Papert, Rogers, e seus seguidores, acreditam que o aprendizado é um direito fundamental do ser humano, e que o crescimento de cada indivíduo intelectualmente é o caminho para uma humanidade melhor, mais tolerante, mais completa, mais realizada.

Para mim, Educação é este ideal.

18 de janeiro de 2021

Ansiedade, COVID, Carla, terapia e CBD

Em Novembro fez um ano que mudamos para o Canadá.

2020 foi o ano que ninguém vai esquecer, o ano em que todos nós morremos e fomos para o inferno. O ano que ainda não acabou e que parece sempre piorar. O ano da guerra silenciosa que matou, afastou e dividiu. O ano em que a ficção dos filmes de pandemia se tornou realidade e aprendemos a viver sozinhos e isolados.

Mas, para mim, também foi o ano em que vendi minha empresa, todas as minhas posses pessoais exceto 10 malas grandes, lidei com minha filha adolescente aos prantos pela perda de toda a sua vida, com minha filha pequena aos prantos pelo medo do diferente. Foi o ano em que levei mais tempo para conseguir um emprego do que para ser demitida dele. Foi o ano em que comprei errado e caro tudo que eu já tinha antes. Foi o ano em que, fora  as 3 pessoas que moram comigo, e uma nova amiga, não encontrei com nenhum outro ser humano.

Por isso tudo e muito mais, 2020 foi o ano em que eu comecei a fazer terapia toda semana e a tomar CBD, um componente da maconha que tira a ansiedade. Aqui no Canadá o CBD é legal, você compra direto do governo, entrega em casa, e nem é caro. Ao contrário da maconha, o CBD não dá barato. Ele só desliga a ansiedade, no meu caso.

E, no ano da desconexão, não ser mais ansiosa é uma forma de não ser mais eu mesma. 

Ansiedade faz sentido, evolutivamente. É aquela sensação de que algo muito errado está logo ali, prestes a acontecer. É ter uma parte da população que se preocupa com o leão que vai vir de noite, com o inverno que vai chegar daqui alguns meses, antes de acontecer. O resto da galera toca o barco focando nas tarefas do presente, enquanto os ansiosos ficam avisando: "Gente, vai dar merda." e preparando a cerca, estocando o milho. O ansioso é aquele suricato que fica em pé enquanto a galera come.

Ansioso.

A vida é melhor para todos desse jeito, mas a vida do ansioso é difícil. A gente tem dificuldade de separar o leão real do dragão inexistente, porque o cérebro fica em pânico a maioria do tempo. E o fato de que todo mundo em volta não tá vendo o perigo deixa a gente ainda mais apavorado. Não só o leão está vindo, mas só você percebe isso.

Hoje eu percebo que a ansiedade sempre esteve presente na minha vida. A sensação de que só eu percebia um monte de coisas que podiam dar errado me transformou em uma excelente resolvedora de pepinos. Eu conseguia bolar plano A, B, C e D para tudo, imaginar tudo que ia dar errado, e planejar para cada situação. Não dormia e chorava o tempo todo, mas resolver era comigo mesmo. Quando eu era dona do meu negócio, passava noites em claro preparando para problemas que nunca aconteciam porque eu resolvia antes de acontecer.

Meu lema era: "Espere o melhor, mas se prepare para o pior."

Então veio o COVID. Não tem como se preparar para uma pandemia. Não tem como resolver. Não tem como não ficar em pânico, porque o mundo está acabando, e o melhor que você pode fazer... é não fazer nada. E aí eu quebrei.

Quebrei porque bati nesse problema que não tem solução, e que impede a solução de quase todos os outros problemas, que é real e imediato e imenso. E que eu não tenho nenhum poder sobre ele. Não tem jeito de ir visitar minha família. Não tem jeito de as meninas fazerem novos amigos. Não tem jeito de conhecer outras pessoas.

Então, quando fui demitida sem aviso prévio e sem explicação, foi a gota d'água para minha saúde mental. Passei a chorar todo dia, a não acreditar que algum dia as coisas iam melhorar, entrei em depressão. Comecei a beber mais do que ocasionalmente. Tentei usar cápsulas de maconha (não sei fumar), mas isso só me fez ficar apática, largada no sofá vendo TV o dia inteiro sem nem vontade de me mover. Sinto que minha vida profissional acabou e que me mudar para cá foi o fim da minha carreira.

Neste momento aparece a Carla na minha vida. Prima da madrinha da minha filha, a Carla vem aqui em casa trazer um presente de aniversário para minha filha. Ela mora aqui há muitos anos, e tudo está bem. Nos conectamos imediatamente, e ela me dá muitas dicas de como conseguir outro emprego, me fala das coisas boas de Toronto, promete um futuro melhor baseado nas experiências dela.

Essa sacudida me anima, faço os cursos que ela me indicou, e acabo conseguindo outro emprego, agora em um lugar que eu sinto que posso fazer diferença. Mas o trauma do primeiro emprego continua me assombrando. A cada reunião, a cada final do dia, meu pensamento é: "Ainda não fui demitida. Será que vai ser amanhã?" mesmo sem ter nenhum motivo para isso. Meu cérebro suricato roda a 200% da capacidade, só pensando no pior.

Decido então começar a fazer terapia e tomar CBD. Faço terapia com um Psicólogo Humanista no Brasil, uma vez por semana. O CBD eu comecei tomando todo dia, de noite, antes de dormir. O efeito mais forte dura mais ou menos umas 6 horas, então dá para trabalhar tranquila. Depois de três meses passei para de 2 em 2 dias, e atualmente só tomo quando a ansiedade aperta.

Os efeitos do CDB são muito claros: a ansiedade desaparece. E eu me sinto outra pessoa, porque eu percebo o quanto meu humor, minhas escolhas, meus pensamentos são dominados por esta sensação permanente de desastre eminente. Começo a esquecer de fazer coisas (porque não estou constantemente repassando minha lista de afazeres mentalmente), começo a ter tempo livre (porque não estou adiantando coisas que talvez eu não tenha tempo de fazer amanhã), paro de brigar com todo mundo para cada um fazer suas tarefas (porque eu não to fazendo nem as minhas). No geral, paro de me importar tanto com tudo. Ao contrário da depressão que me desliga, o CBD me desacelera. Fico mais atenciosa, mais paciente, mais focada.

A terapia me ajuda a dar outros passos. Me ajuda a aceitar minhas limitações e a falar dos meus medos. Me ajuda a aceitar que o futuro é incerto e que eu não controlo quase nada. O CBD me dá estabilidade suficiente para conseguir falar destas coisas sem chorar compulsivamente, e, aos pouquinhos, vou me libertando do medo de ser despedida novamente, do mundo acabar, de todo mundo morrer.

Não está bom ainda. Talvez nunca fique. O COVID veio para nos mostrar o quanto somos vulneráveis e que, apesar de todo o imenso progresso da ciência neste ano, nossa sociedade mudou irremediavelmente. Os impactos na economia, na educação, nas relações pessoais, na política, serão profundos. Meu cérebro bom de prever consequências indesejadas sabe que nosso pós-guerra será tão duro quanto a guerra. E que a guerra ainda está longe de acabar. Que a vacinação é só a primeira etapa, mas que a reconstrução da nossa sociedade será longa e difícil.

Enquanto isso, aprendo a encontrar alegria em pintar uma cópia do retrato do meu avô, em cozinhar, em voltar para este blog. Vida que segue.

Cópia de retrato de Sálvio de Oliveira. Original pintado por Inimá de Paula.


23 de agosto de 2020

Lo and Behold, these are my friends

Lo and Behold, these are my friends.

They are creating other people, theories and incredible machines.

They are baking.


They are worried and sad, and some of them are sick. 

        But they are also walking in gardens and observing bugs.


They are loving and liking. 

        But they are also troubled and looking into the future for answers.


Lo and Behold, these are my friends.


They are humanity.




lo and behold: used to present a new scene, situation, or turn of events, often with the suggestion that although surprising, it could in fact have been predicted.

11 de agosto de 2020

Diário de uma Savant, ou como uma brasileira vive no Canadá

“Savantismo: A síndrome do sábio, síndrome do idiota-prodígio ou savantismo (do francêssavant, "sábio") é considerado um distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência. Tais habilidades são sempre ligadas a uma memória extraordinária, porém com pouca compreensão do que está sendo descrito.” [https://pt.wikipedia.org/wiki/Savantismo]

Translation Service Essentials—Why Not Just Use Google Translate - Ulatus  Translation Blog

Viver de turista em um país é completamente diferente de morar nele. Principalmente se você já tem uma vida estabelecida. Começando jovem, do zero, é fácil. Você ainda não sabe nada, então aprender a viver está no pacote.

Mas, quando você tem que adaptar a uma nova vida, e desaprender o que já sabe, e aprender a viver de uma forma diferente, é bem mais complicado. Por isto, neste post, eu vou dividir com você tudo que aprendi por aqui nestes meses que eu queria que alguém tivesse me contado.

Parte I - Eletrodomésticos

Máquina de Lavar Louça

Nós temos uma Bosch. Depois de 7 meses morando aqui, os copos e talheres de inox foram ficando cada vez mais embaçados, mesmo com a gente usando o sabão certo. Descobrimos então que a água de torneira daqui pode ser uma tal de "hard water", que é uma água cheia de minerais. Soluções possíveis (usei uma combinação das 3)? 

  1. Lavar a máquina com vinagre no lugar de sabão uma vez por semana
  2. Usar uns tablets de limpeza de máquina. O do Finish custa uma fortuna, CND30 por 3 tablets, teoricamente 3 semanas, e achei que o vinagre foi mais eficiente. O genérico da Amazon é CND15 por 12 tablets, mas não testei ainda.
  3. Lavar a máquina com uma esponja com um pouco do Líquido secante. Serve para limpar os copos também, mas tem que enxaguar bem, porque o negócio é super concentrado.
  4. Existe uma programação que aparece no painel chamada "Ch" que quer dizer "Child Safety", ou seja, impede que a criança mude a programação. Se não tirar isso, você não consegue também. Tem que olhar no manual de cada máquina como remover.

Máquina de Lavar Roupa

  1. Água quente vai encolher suas roupas. Água fria não vai lavar direito. Você escolhe.
  2. De mês em mês, olhe dentro da máquina e na borracha da porta para ver se não está acumulando sabão líquido velho. Vai dar um cheiro de mofo e podridão horrendo. Tem que limpar com um pano úmido.

Secadora de Roupa

  1. Tire o "lint". Toda vez que usar a secadora. Passamos três meses lavando e secando roupa sem saber que precisava de limpar o filtro da secadora a cada vez que usava. O resultado poderia ter sido um incêndio. Descobrimos isso porque a máquina estava levando 3 horas e meia (três ciclos completos) para secar duas camisetas. Depois que limpamos o filtro, passou a secar em 20 minutos 
  2. Roupas brasileiras encolhem na secadora. Use "no heat" ou seque pendurando como no Brasil (impossível durante o inverno).
  3. Casacos de lã, pompons e peles no colarinho derretem na secadora! Estraga as peles todas. Tem que remover (se possível), ou colocar a secadora só na ventilação "no heat".
  4. Toda vez que colocar roupa na secadora, você tem que adicionar um ou dois "Dry Sheat" (ver figura abaixo). Se não colocar, você vai tomar choques absurdos, principalmente em roupas de lã e toalhas de mesa sintéticas.
Eu uso esta marca, mas você pode escolher a que gostar mais.

Parte II - Roupas


Aqui você descobre que para se vestir o importante é a temperatura do “feels like”, não a que aparece no topo. Pode estar -2oC, mas o “feels like” de -17oC. Ignora o -2oC e confia no -17oC. 

    Feels like. Sempre.

Inverno

  1. As roupas de frio brasileiras são inúteis aqui. Vão encolher na primeira lavada, ou você vai morrer de frio. Não adianta fazer 3 camadas. Você vai assar quando entrar no metrô ou lugares fechados.
  2. Aqueles casacos pesados com pelo no pescoço são lindos e quentinhos, mas para andar o dia inteiro não rola, são muito pesados. Só compre se for para ficar linda. 
  3. Para o dia a dia o melhor é aqueles que você parece uma salsicha, recheado de pena de ganso. São leves e quentes a beça. É essencial que o casaco seja fácil de abrir e fechar. O zíper deve ser bem grande para você conseguir fechar de luva. Tem uns com preço ótimo na UNIQLO, no maior shopping de Toronto, o Eaton Center. Você vai gastar uns CND100, mas não vai se arrepender.
  4. Na hora de entrar em sair dos lugares, todo prédio tem duas portas na entrada. Entre as duas é onde você põe/tira luva, touca, cachecol, etc. É tipo um purgatório entre o céu quentinho (dentro) e o gelo dos infernos (fora). 

  5. Acima de 0oC, pode colocar uma camada de roupa quente (um casaco salsicha, ou um suéter). 
  6. Entre 0 e -5oC (“feels like”, sempre), põe um suéter por baixo do casaco e uma calça mais grossa (jeans) e tenha dois pares de luvas leves (uma vai cair na água e molhar). 
  7. Entre -5oC e -15oC, põe a legging aquecida por baixo da calça, as luvas tem que ser impermeáveis, o suéter vira blusa de lã, a bota impermeável é essencial, e cobre a cara com cachecol ou com um protetor de rosto, senão sua bochecha congela. 
  8. Entre -15oC e -20oC, coloque tudo que tem. E saiba que não vai ficar mais de 20 minutos do lado de fora. 
  9. Abaixo de -20oC só Jesus resolve. Se quiser fazer esportes de neve, aí tem que ter o Snowsuit. Nós compramos os nossos adultos na Sportscheck (https://www.sportchek.ca/e o infantil na Osh Kosh B'Gosh (https://www.cartersoshkosh.ca/). Rodamos por dias antes de achar. Tem que estar na época certa, senão não acha.

Verão

  1. Sim, tem. Sim, é quente a beça (ver os 34oC acima). Aqui suas roupas brasileiras vão valer a pena. Short, sandália, vestido, top. 
  2. A parte boa é que Toronto pelo menos é super relaxada com vestuário (Vancouver eu achei mais "stylish"), então use o que quiser. Ninguém liga.
  3. A galera liga tão pouco, que vc vai ver gente no parque tomando sol de topless e de calcinha e soutien. Normal. Todo mundo ignora.
  4. De novo, a UNIQLO é uma boa opção. Roupa barata, tem algumas coisas mais estilosas.

Parte III - Convívio Social

  1. Fale baixo. Muito mais baixo do que você já falou na sua vida. Toda vez que eu ouvi alguém falando alto desde que me mudei, ele era brasileiro.
  2. Transforme todas as suas frases / ideias / sugestões em perguntas. Ao invés de falar: "Eu acho que você devia fazer isto.", diga "Eu estou interessado em saber o que aconteceria se fizéssemos isto."
  3. Nunca fale de você mesmo diretamente. Se comprou uma roupa nova, não chegue contando: "Olha que legal o meu vestido que eu comprei ontem." Ao invés disto, elogie a roupa da outra pessoa:  "Que bonita sua roupa hoje." Ela vai falar "Obrigada! Seu vestido também é bonito." E aí você fala: "Obrigada! Comprei ontem." Mas se puder evitar essa conversa toda, é melhor ainda.
  4. Continuando no item 3, se alguém te elogiar ou perguntar algo, sempre pergunte "And you?" de volta. Por exemplo, se a pessoa perguntar: "Como foi seu final de semana?", você responde: "Foi bom, obrigada. Fomos ao parque fazer um picnic. E o seu?" Evite histórias longas e detalhadas.
  5. É costume tirar o sapato quando for entrar em casa, na dos outros inclusive. Mas aqui, estranhamente, a gente não tem chulé. No inverno dá um cheiro estranho de cachorro molhado na entrada da casa, por causa da neve.

Parte IV - Emprego

  1. Transferência de habilidades (skills transferability): A maioria dos empregos qualificados aqui requer licenças, treinamento ou formação canadense. Eu por exemplo, fui professora de faculdade, de extra-curricular e engenheira no Brasil. Aqui nada disso conta. Para ser professora de ensino infantil, eu tenho que ter o curso do OCT (Ontario College of Teachers). Para ser engenheira, tenho que passar na prova do conselho de Engenharia (tipo um CREA) para a área específica que eu quero atuar. Para dar aula em Universidade tenho que ter meu diploma validado aqui. Então, simplesmente conseguir emigrar não resolve.
  2. Procure ajuda! Tem um monte de organizações que podem te dar informações, ajudar com currículo e ajudar a encontrar vagas. Quando eu cheguei, a Assistente Social da escola da minha mais nova marcou uma reunião comigo e me ajudou muito. Atualmente estou contando com a ajuda da "Skills for Change" (https://skillsforchange.org/) para tentar achar emprego.
  3. Esteja preparado para ralar muito. A concorrência é grande, altamente qualificada, competente e voraz. 
  4. Cuidado com sites de emprego como o Indeed e LinkedIn. Tem um monte de emprego falso lá. Vale mais a pena procurar as empresas que você gostaria de trabalhar e aplicar diretamente no site deles. E o processo é menos automatizado, então seu currículo talvez seja visto com mais tempo.
  5. Saiba que você vai começar por baixo. Era gerente no Brasil? Aqui vai começar como caixa. Era dono do próprio negócio? Aqui vai ser vendedor. Você não tem "canadian experience", então eles não tem como saber se você é competente. Empregos de mais valor e responsabilidade geralmente são ocupados por promoções internas.
  6. Faça trabalho voluntário. Isso foi algo que a Assistente Social me indicou, e eu agora estou fazendo, e vale muito a pena. Primeiro, porque é bacana demais. Segundo, porque você faz conexões em torno de um interesse comum. Terceiro, porque você pode aprender sobre relações sociais e semi-profissionais em um ambiente sem pressão. Quarto, porque você pode citar como experiência profissional (desde que indique que é como voluntário) no seu currículo. Quinto, porque no Canadá as pessoas valorizam demais voluntariado, mostra que você se importa com a comunidade. Todo mundo aqui voluntaria para alguma coisa.

Parte V - Comida e Saúde

  1. Todo mundo é fit. TO-DO MUN-DO. Eu sou sobrepeso (no Brasil sou normal), e aqui eu sou a pessoa mais gorda que eu conheço. Todo mundo faz esportes. To-do mun-do.
  2. Tem que tomar Vitamina D: Comecei a tomar Vitamina D só depois de meses aqui, e me arrependi de não ter começado antes. Eu tomo de 2000 a 3000 UI por dia. Mas tem que olhar por pessoa, porque depende de um monte de coisas. Mas tome! Pelo menos 1000 por dia.
  3. As pessoas comem razoavelmente bem. Apesar da proximidade dos EUA e da comida ser parecida, a bebida é bem diferente (ver a seguir), e o tamanho das porções é pequeno. A comida é relativamente cara, comparando com os EUA. As opções são praticamente a dieta americana: hambúrguer, pizza, cerveja, fish fingers e poutine (o único prato típico, que é uma gororoba de batatas fritas com molho de carne “gravy” e cheddar por cima). De café e jantar é sanduíche, muffin e cookies. Muita gente faz a própria comida e leva para o trabalho.
  4. Como se anda nessa terra! 15 minutos ate o metro em terreno instável e escorregadio é considerado nada. Para classificar como “andar”, tem que ser pelo menos uma hora. Uma trilha leve tem 1:30h. As trilhas sérias sao de 4 horas de subida. 
  5. Aqui poucas pessoas tomam refrigerante, os restaurantes servem água de graça assim que você se senta (se ele perguntar, peça "tap water" ou "regular water"). 
  6. Todo mundo bebe a água da torneira de boas. Suco ou refrigerante só em ocasiões especiais.
  7. Tem poucas opções de almoço e lanche do tipo brasileiro. Aqui é quase sempre sanduíche. Eles levam muito a sério incluir salada.
  8. O sistema de saúde é público, mas pelos primeiros três meses aqui ele não estará disponível para você. Para isto você tem que fazer a carteirinha de saúde no Service Ontario mais próximo.

Parte VI - Diversão e Ritmo de Vida

  1. Community Center: São espaços maravilhosos! Tem aulas de tudo (dança, pilates, crochê, digitação...), parque, parquinho, quadras, piscina aquecida no inverno, piscina ao ar livre no verão, pista de patinação no gelo. É tudo de graça. Só chegar e usar.
  2. Parques: Toronto é considerada a cidade dentro de um parque. E é isso mesmo. Tem parques incríveis, com trilhas, espaço para picnic, banheiro. Só não tem comida e bebida para vender na maioria dos parques, tem que levar (lembra deles serem fit?).
  3. O ritmo aqui é outro. As pessoas são tranquilas, pacatas e calmas. Nosso jeito "agitado" brasileiro soa como "emergência" para eles e eles ficam assustados. As pessoas esperam respostas em dias, não horas. Esperam mudanças em semanas, não dias. Planejam para anos, não semanas. A gente custa a sair do modelo "fast and furious". 

Bom, por enquanto foi isso que eu lembrei. Se você tem outras experiências e perguntas, coloque nos comentários e vamos conversando! :)

A Última Guerra

 O último mês viu o nascimento do ChatGPT . Pela primeira vez, um programa de computador é capaz de responder à perguntas como um ser humano...